Na década de 1960, morei quase um ano numa república, com mais vinte e dois companheiros. À época, trabalhávamos no Banco do Brasil, na cidade de Ceres, em Goiás. Éramos quarenta e um funcionários e apenas dois, da cidade.
Nós, os forasteiros, vivíamos espalhados pelos dois hotéis e pelas pensões existentes na cidade, até que alguém mais esperto alugou um casarão e foi sublocando vagas: conjunto de dois, de três e até de quatro lugares, dependendo do tamanho do quarto. O locatário estabeleceu regras rígidas para os integrantes da pequena comunidade, vivia de graça e, segundo as más línguas, ganhava mais dinheiro com o empreendimento do que no trabalho regular no banco.
A vida ali numa via que de avenida só tinha o nome, era muito difícil, mas significava economia grande, haja vista o preço das acomodações em hotel e pensão. E a convivência ali com pares tão díspares me ensinou coisas importantes. Aprendi, por exemplo, que para alguns democracia é um conjunto de leis a que os bobos e os mais fracos devem se submeter sem contestar.
As leis eram muitas e diziam - visavam a uma salutar convivência interna e com a vizinhança. Com os confrontantes nunca houve muitos conflitos, pois, afinal, os vizinhos eram pessoas humildes, quase todas clientes do banco onde trabalhávamos. Internamente, porém, nunca os objetivos de uma convivência tranqüila foram alcançados, sobretudo nos finais de semana. A maioria dos colegas ia a bailes, chegava embriagada, acordava todo mundo, quebrava coisas, queria bater nos sonolentos sóbrios. O restante da madrugada estava perdido, já não se conseguia dormir.
Aquilo era uma loucura.
O colega de quarto me acalmava:
– Liga não, república é assim mesmo, todo mundo tem seus direitos... Democracia é assim mesmo...
Na república havia de tudo, talvez até algum equilibrado que não identifiquei. Alguns poucos liam muito. Eu li muito, emprestando livro em todos os quartos. Todos os gostos moravam ali. Li os romances de José de Alencar, li o Novo Testamento, li A Carne, li O Cortiço, li o primeiro volume de A Nova Floresta, li uns cinqüenta livros de sacanagem, ilustrados a bico de pena, afora revistas como Visão e Capricho que chegavam com semanas de atraso.
Li a Utopia, de Thomas Morus.
Esse livro plantou em mim o sonho da justiça social e a utopia do socialismo.
Um dia, muitos anos depois, saí gritando em esquinas e ruas, pregando em praças estradas antigas, porém novas para meu jovem coração visionário. Acreditei, jurei fidelidade, fiz púlpito do caixote vazio, da carroceria do caminhão alugado, gritei em microfones a certeza da chegada de um novo dia para quantos viviam à sombra e à margem.
Muitas pessoas ouviram a minha voz e algumas acreditaram.
Impossibilitada a minha voz de retornar às esquinas e às ruas, empunho a mesma caneta de sempre, vou dizendo ao mundo que continuo a acreditar na chegada da aurora.
Anima meu caminhar a crença de que, quando ela chegar, o sol aquecerá o pão e ele será repartido entre todos os homens.
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