O pai, a mãe e os filhos. À primeira vista, a concepção parece simples demais. Comum até, desde que estejam todos vivendo juntos, em harmonia. Entretanto, essa trilogia responsável pela existência da família está totalmente à deriva nestes tempos conturbados de agora. Ainda, pelo aspecto sociológico, a família também deixou de ser uma instituição agregadora de pessoas ligadas pela descendência e, principalmente, pela ascendência. Via de regra, o cuidado recíproco entre os membros familiares está muito longe daquilo que se espera de quem valoriza o fator da consanguinidade.
Apesar da diferença de sangue familiar existente entre um homem e uma mulher, o que se espera da união entre ambos é que pelo menos o respeito mútuo sirva de elo. Sem essa consideração inicial, filho nenhum consegue depois segurar uma ligação matrimonial desrespeitosa. Os exemplos da enfraquecida família estão por toda parte. Só na última semana, este jornal estampou várias notícias policiais que dão a exata dimensão do violento fenômeno contemporâneo, com capacidade de provocar a desagregação familiar.
A última semana começou com o assassinato de duas mulheres. Além disso, houve também a tentativa de se acabar com a vida de um rapaz que as acompanhava no momento da tragédia. Vale destacar que o sobrevivente tem menos de 18 anos, da mesma forma que uma das mortas. Por sinal, a menor de 16 anos deixou ainda uma filha. A outra vítima fatal estava grávida e tinha filhos. Para piorar a situação, nenhuma delas vivia em uma família normal, composta de pai, mãe e filhos.
Há uma tendência sintomática nas nomeações atuais. Marido e esposa são palavras pertencentes somente ao vocabulário de quem se casa pela primeira vez. Após a separação, o que vem depois acaba se tornando “namoro”, mesmo que o casal esteja vivendo sob o mesmo teto. O filho ou a filha só se refere ao novo companheiro da mãe como sendo o namorado ou vice-versa.
O segundo fato policial aconteceu na quarta-feira passada. Uma mulher foi estrangulada com um cabo de aço no Jardim Flórida. A suspeita do assassinato recaiu sobre o marido dela. Como não foi preso em flagrante, o homem aguardava o inquérito em liberdade. Dias depois, demonstrando, pela terceira vez, a total falta de apreço aos laços familiares, o acusado aguarda de tocaia o filho de 17 anos e tenta matá-lo. Só não conseguiu o intento, graças à intervenção de outros familiares. Outro lamentável acontecimento policial foi a tentativa (?) de ato sexual entre dois irmãos. A mãe surpreendeu o filho de 13 anos na cama, por cima do de 6 anos. Um estava nu e o outro seminu. Segundo a mulher, o irmão maior estava morando com o pai. Por falta de entendimento na casa paternal, passou a residir com ela.
Esses e muitos outros acontecimentos comprovam que a família deixou de ser o reduto seguro para uma pessoa. Isso interessa a quem? A resposta para tamanho descalabro está pairando no ar.
Antônio Araújo
Articulista e professor - tonin.palavras@uol.com.br
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.