O PMDB realizou sua convenção municipal ontem. O empresário do setor da construção civil e professor João Batista Rocha, 55, esperava ver o seu nome indicado como candidato a prefeito. Tinha o compromisso do presidente do diretório estadual, deputado Baleia Rossi, de que o PMDB lançaria um representante de suas fileiras para tentar conquistar a Prefeitura 20 anos depois - a última vez foi no distante 1992. Rocha reuniu um grupo de apoiadores e chegou a promover eventos para se apresentar.
Mas, antes mesmo da convenção, seus planos foram frustrados. O PMDB desistiu de lançar candidatura própria e se juntou ao PSDB de Sidnei Rocha. Nos bastidores políticos, são fortes os comentários de que a interferência do governador tucano Geraldo Alckmin foi decisiva para a consolidação da aliança.
Ao abrir mão da disputa pela Prefeitura e entregar seus 3 minutos e 4 segundos aos tucanos no horário eleitoral gratuito, o PMDB obteve o direito de indicar o vice. Imaginava-se que o escolhido fosse João Rocha. Em reunião realizada na última terça-feira, os caciques do partido, no entanto, decidiram pelo nome de Fernando Baldochi.
Rocha afirma que não colocou o seu nome na disputa e que se recusa a se alinhar com o grupo de Sidnei Rocha. Fato é que rompeu com os antigos companheiros e passou a criticar os tucanos. “Fui chamado em São Paulo pelo deputado Baleia Rossi e ele me pediu que eu aceitasse a condição de ser vice do PSDB. Eu disse prontamente que não. Nem morto eu me juntaria a esse pessoal.”
O, agora, ex-pré-candidato avalia como um “desastre” para o PMDB a parceria com o PSDB. Afirma que o único interesse dos tucanos é o espaço maior na televisão e no rádio. “Não sei quais foram os interesses que levaram a esta união. O que o Aírton pode transferir em termos de voto para um candidato?”, questionou se referindo ao ex-deputado Aírton Sandoval, um dos caciques do PMDB. Indignado, prometeu pedir afastamento do partido e levar consigo o grupo que iria apoiá-lo e a chapa de candidatos a vereador.
João Rocha foi secretário do prefeito Maurício Sandoval no fim da década de 70. Disputou as eleições para prefeito em 1982 e foi vice no período de 89 a 92, também ao lado de Maurício. Depois de um longo tempo afastado da política, retornou ao cenário neste ano com a promessa de renovação. Ficará para a próxima.
Confira a seguir os principais trechos da entrevista de João Rocha.
Comércio - O senhor pretendia disputar as eleições para prefeito e garantia que seria o candidato do PMDB. O partido desistiu da candidatura própria e indicou outro nome para vice. O que aconteceu?
João Rocha - A volta de nosso grupo para o PMDB estava dentro de um contexto de reestruturação do partido em níveis municipal e estadual. A reestruturação incluía ideias, pessoas e comportamentos. O planejamento previa que teríamos candidatura própria. Durante o percurso, prevaleceu a velharia do PMDB. O que é velharia? É aquilo que aconteceu na eleição passada, quando o partido não elegeu nenhum vereador e se dispôs a prestar serviços para o PSDB e para o prefeito Sidnei Rocha. Eu não me incluo neste contexto. Não vou participar disto. Fui chamado em São Paulo pelo deputado Baleia Rossi e ele me pediu para que eu aceitasse a condição de ser vice do PSDB. Eu disse prontamente que não.
Comércio - Por que não?
João Rocha - Acho que nosso grupo tem uma história. É um grupo forte e respeitado na cidade. É composto por dois ex-candidatos a prefeito, que sou eu e o Paulo de Tarso, por dois ex-vice-prefeitos, que sou eu e o [José] Chiachiri, por cerca de quase 20 ex-secretários municipais, ex-diretores da Câmara e por funcionários da Prefeitura. Eu não sinto e não me sentiria confortável, por exemplo, em ter que andar com um grupo e ter que explicar por que os bens do senhor prefeito foram bloqueados. Por que tenho de participar de um grupo que está sendo investigado por uma CEI na Câmara na questão da merenda escolar? Por que tenho que andar com um grupo que tem problemas sérios na Feac? Não tenho. Me orgulho de nossa história política. Venho de duas administrações com o prefeito Maurício, onde não temos, depois de 20 anos, um problema sequer no Tribunal de Contas ou uma conta rejeitada. Fazemos política como uma extensão de nossa vida. Precisamos continuar andando de cabeça erguida na cidade. Por isto, não aceitei em hipótese alguma ser vice do PSDB. Não vou andar, por exemplo, com Aírton Sandoval Santana. Não me faz bem a companhia desta pessoa.
Comércio - Mas, no dia 31 de março, o senhor subiu no mesmo palanque que ele durante almoço do PMDB em que pretendia lançar sua candidatura...
João Rocha - Eu não dividi palanque. Eu convivi internamente no partido com o Aírton. Como vou ficar junto de alguém que, de acordo com o que já foi divulgado pelo jornal, foi pego numa conversa com empreiteiros tentando arrumar dinheiro para a campanha? Nossa prática não é esta.
Comércio - Quando o senhor voltou para o PMDB o Aírton já estava no partido...
João Rocha - Ele estava, mas nós voltamos com o propósito de renovar o PMDB e o Aírton faz parte das coisas velhas do PMDB.
Comércio - O senhor sempre afirmou que tinha a garantia do presidente do diretório estadual, Baleia Rossi, de que seria o candidato. Ele não cumpriu a palavra?
João Rocha - Nós tivemos mais do que isto. Nós encaminhamos um ofício pedindo candidatura própria ao diretório estadual, pois sabíamos que no diretório municipal as nossas chances não existiam por causa das práticas do próprio Aírton e dos companheiros dele. Em duas reuniões, o pedido foi aprovado por unanimidade. O partido chegou a enviar para Franca uma carta notificando o diretório municipal que o partido teria candidatura própria. Infelizmente, usaram de artifícios, que não sei dizer quais são, para fazer uma negociação ou, quem sabe, uma negociata e acabaram extirpando a ideia. Hoje, o presidente do partido, Fábio Liporoni, diz claramente que está satisfeito em prestar serviço para o PSDB.
Comércio - Como o senhor avalia a aliança com o PSDB?
João Rocha - Para o PMDB, um desastre. Já o PSDB, conseguiu o que queria: um espaço maior na televisão e no rádio. Na verdade, levou o quê do PMDB? O que o Aírton pode transferir em termos de voto para um candidato? Não sei quais foram os interesses que levaram a esta união. Agora, além do espaço, o PSDB desarticulou um grupo que poderia dar muito trabalho nas eleições.
Comércio - Ao desistir da candidatura própria o PMDB não se enfraquece politicamente na cidade?
João Rocha - Não tenho a menor dúvida disto. Acho muito difícil o partido fazer, sequer, um vereador. Nos próximos quatro anos, o PMDB vai continuar submisso às ideias do senhor Sidnei Rocha.
Comércio - O Alexandre Ferreira [candidato tucano] é o nome ideal para ser o prefeito de Franca?
João Rocha - Não vou fazer uma avaliação pessoal. O que posso dizer é o seguinte: a pasta que ele dirigiu, para mim, é a pior da Prefeitura no momento, que é o setor da Saúde. Se ele não conseguiu resolver a pasta dele enquanto foi secretário, como é que vai resolver os problemas das outras secretarias? Eles falam que está faltando médicos, mas tem profissionais que chegaram a receber mais de R$ 30 mil em vários meses seguidos e a população não é bem atendida. Quem tem que explicar isto não sou eu. É o Alexandre e o seu Sidnei.
Comércio - O que o senhor achou do vice indicado pelo PMDB?
João Rocha - O Fernando foi meu aluno. Tenho ele como uma boa pessoa, mas em termos de experiência política não enxergo isto nele.
Comércio - Ficou frustrado por não ter sido indicado candidato a prefeito?
João Rocha - Não. Sei que o embate político acontece. A queda de braço foi uma briga de bicho grande. Nesta briga, não tínhamos a oferecer nem um carneirinho e algumas pessoas tinham para oferecer dois ou mais leões. Temos que respeitar a força de cada um.
Comércio - O senhor está querendo dizer que correu dinheiro nas negociações?
João Rocha - Eu não disse isto. Disse que, quando se negocia politicamente, alguns têm mais e outros têm menos força no momento.
Comércio - O senhor permanece filiado ao PMDB. Vai trabalhar para o PSDB?
João Rocha - Nem morto. A pessoa que mais respeitei na vida foi o meu pai, que já faleceu. Mesmo se ele voltasse e pedisse para eu me aliar com este pessoal, eu não faria em hipótese alguma.
Comércio - Por que não?
João Rocha - Não me sinto confortável em explicar uma série de coisas que está acontecendo com este pessoal. Como explicar que os bens do prefeito estão indisponíveis? Como explicar que a nossa passagem de ônibus é uma das mais caras do País e quem determina isto é o senhor prefeito, que comprou duas rádios do dono da empresa de ônibus? Isto não é ético.
Comércio - Como será a sua participação na campanha?
João Rocha - Não acompanharemos o destino do PMDB local. Vou pedir afastamento temporário do partido e levarei comigo cerca de 30 pré-candidatos a vereador. Nosso grupo vai continuar trabalhando. Vamos escolher um lado para trabalhar nesta campanha.
Comércio - O senhor já foi procurado por alguém?
João Rocha - Temos conversado com o pessoal do PT, com o Gilson Pelizaro, com o pessoal do Ubiali e da Graciela. Estaremos do lado vitorioso. Mas, este lado precisa ter projetos e seriedade como o nosso grupo tem. É preciso deixar muito bem claro: não vamos acompanhar quem tem rabo preso.
Comércio - Como imagina que será a campanha em Franca?
João Rocha - A campanha será rápida e muito disputada. Desde 1968, só a eleição passada, quando o Sidnei tinha mais de dez partidos ao lado dele, foi decidida por uma larga margem de votos. Todas as outras foram decididas no detalhe. Com isto, quero dizer que um grupo de peso como o nosso poderá fazer diferença nas eleições.
Comércio - A decisão vai para o segundo turno?
João Rocha - Disto eu não tenho dúvidas. Acho que nenhum dos candidatos têm como ganhar no primeiro turno.
Comércio - O que será decisivo?
João Rocha - O conjunto precisa ser forte. Uma divulgação bem feita em todas as mídias é fundamental, mas é preciso seriedade e boas propostas. A população não é boba mais e sabe escolher. E tem mais: por que não vou com o pessoal que está ai? É saudável que tenhamos alternância no poder. Não só para que ideia novas venham, mas para que ideias e projetos velhos sejam julgados.
Comércio - Ao fazer esta afirmação, o senhor quer dizer que o governo Sidnei Rocha está saturado?
João Rocha - Não tenho dúvida disto. Ele próprio está dizendo que está cansado. Não sei por que ele quer continuar.
Comércio - Qual recomendação o senhor faz aos eleitores?
Sidnei Rocha - Analisem nitidamente os candidatos e seus acompanhantes. É preciso levar em consideração as questões de ordem moral, ética e administrativas. Devemos escolher aqueles candidatos que querem o melhor para a cidade e não quem pensa apenas no lado pessoal.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.