Sons do silêncio


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Sounds of Silence é uma daquelas músicas inesquecíveis para minha geração, da dupla Simon e Garfunkel e que foi trilha sonora do filme “A primeira noite de um homem”, com Dustin Hoffman e Anne Bancroft em atuações marcantes e lendárias. Lembrei-me desta música quando, retornando de viagem a São Paulo num Cometa, vi ao longe as luzes da cidade no planalto, tremeluzindo desde Batatais. A noite era de lua cheia, destas que permitem reinterpretar os versos de Ferreira Gullar, “dentro da noite veloz”, a paisagem aberta dos canaviais e reentrâncias de matas se sucedendo, os morros de Minas Gerais se insinuando para os lados da divisa.

A viagem, que nos anos 70 era feita em cinco horas, quando havia pista simples de Limeira a Franca, hoje não leva menos que seis, em pista dupla e veículos turbinados. Quando o ônibus chega à cidade ainda são apenas nove e meia da noite de um sábado gelado. Os grandes prédios do campus universitário estão uma desolação só, a luz do luar tragada pela escuridão. A feérica e remodelada avenida que leva à nova residência do alcaide resplandece, enquanto as ruas dos bairros pobres adjacentes enfrentam buracos negros. Sorry, periferia, já dizia cinicamente um colunista social.

Quando o grande veículo entra na avenida que dá acesso ao centro, vou vendo os restaurantes, que estão cheios de gente. Famílias, namorados e alguns poucos desgarrados na noite. Pizzas, caldos (eu pensava que os caldos eram apenas para curar ressaca, mas não, tornaram-se atração com luz própria, se a Mafalda do Quino soubesse disso teria um troço), sanduíches, sandubas, feijoadas, peixes. Mas o pior era o volume da música que vinha dos estabelecimentos, que se podia escutar do veículo em movimento. Uma picape ultrapassa o ônibus em alta velocidade com o som no último, os vidros das janelas chegam a balançar.

O antigo colégio Champagnat está às escuras também, suas sombras se projetam sob a luz prateada. Depois, as faculdades municipais também fechadas, o auditório da OAB idem. O teatro municipal é um abandono só, não há programação nenhuma naquele sábado. Na rodoviária, o vazio ainda é maior, não apenas de gente, mas as salas vazias desvelam o vazio das políticas de cultura que não existem neste governo. Até aquela mambembe sala do MIS desapareceu, nosso único motivo para sorrir num lugar de passagem como a rodoviária, onde querem dirigir o fluxo das pessoas como ovelhas amestradas e se gasta mais dinheiro para estacionar carros destruindo os jardins.

Ainda não são dez horas da noite de um sábado qualquer quando chegamos. Em todos os lugares por onde passei na cidade, a cultura está com as portas fechadas. A única coisa que resiste é o som ensurdecedor das picapes que passam com suas músicas sertanejas no volume que eu ouvia rock quando era jovem. Cidades sem espaços públicos para a cultura tornam-se inóspitas. Mas resistiremos até janeiro, falta pouco para acabar.
 

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