Debate e reflexão: drama americano chama a atenção para vícios e luto


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Protagonistas Halle Berry e  Benício Del Toro em  Coisas que perdemos  pelo caminho
Protagonistas Halle Berry e Benício Del Toro em Coisas que perdemos pelo caminho

Coisas que perdemos pelo caminho, filme de 2007, da diretora Susanne Bier, tem um título sugestivo. Saímos, ao nascer, de um lugar feito sob medida para o mundo exterior, que exige constantes esforços - respirar, obter comida, aconchego, atenção. Daí por diante, seguimos desafios - conquistar crescente autonomia e aceitar a inevitável perda de segurança, de proteção. Um duro aprendizado da renúncia à ilusões, ignorâncias, confortos e crenças, esperando ganhar Autoconfiança, Sabedoria, Coragem e Fé na Vida.

Lorenzon, ator paulista, diz: “somos o resultado de nossas perdas”. Luiz Cruz, no suplemento literário Nossas Letras do Comércio, falou algo sobre a necessidade de “esvaziar a mala”, a “bagagem”, para não se carregar pelo peso excessivo. Alguns conseguem, mas outros carregam pesos desnecessários, sombras (fantasmas) velam o ‘eu’ e, assim, tornam-se melancólicos. Portam feridas sangrantes que nunca se fecham.

Há pessoas que se sentem ‘sem bagagem’, vazias, esvaziadas, e tentam preencher os vãos da existência com drogas variadas. Qualquer coisa ou pessoa pode ser usada como droga para quem se sente vazio ou com um ‘sentimento de futilidade’ (uma vida sem significado). As drogas podem variar - o trabalho, a religião, o sexo, ou o ser amado (a paixão intensa quase não se distingue da loucura), a comida, a bebida, as drogas alucinógenas -, mas não a função das drogas ‘escolhidas’, que têm a função de obturar, ou de anestesiar sentimentos inconscientes.

“Aceite o que é bom” é uma frase de Jerry (Benício Del Toro), viciado em heroína, para o amigo Brian (David Duchovny), o único que lhe restara. Brian, assassinado de forma estúpida, deixa em estado de choque a mulher Audrey (Halle Berry), que nunca aceitou a amizade de Jerry e Brian, quando este era vivo. Audrey convida Jerry a viver com ela e os dois filhos do casal, sem ela mesma saber o motivo peculiar do convite.

No estranho convívio, Jerry e Audrey pensam que ‘o bom’, o elo que os une, é justamente Brian. Depois descobrirão que podem dar e receber algo ‘bom’, que não sabiam que poderiam receber e/ou dar. Não há quem seja tão sem recursos que não tenha o que dar (ou que seja tão pródigo em recursos que não precise receber). As dores, em Audrey e Jerry, sofrerão transformações. Audrey repete a frase “aceite o que é bom”, oferecendo-lhe uma internação em uma clínica de reabilitação, pensando estar repetindo uma frase de Brian. Mas Brian soubera receber ‘o bom’ de Jerry (nesta frase e em outras situações), mesmo que o considerasse um ‘caso perdido’. Podemos compreender o mote do filme ‘a esperança vem quando há entrega’, a partir de um diálogo sobre fluorescência entre Brian e o filho caçula. Fluorescente, deduz o garoto, quer dizer iluminado por dentro. Todos os personagens no filme descobrem sua luz interior, a que capacita a entrega, a que irradia luz verde, feito a Esperança.

Perder e ganhar depende de valorações íntimas, conscientes e inconscientes, discriminando riscos e defesas contra os perigos. Uma boa conversa é a minha esperança de que possamos ganhar, através deste caminho aberto pelo evento francano Cinema & Psicanálise.
 

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