Existem algumas atitudes que realmente encantam e por mais que a gente procure defeito não encontra, ainda mais quando propagada por gente famosa. Mania de desconfiança. Dias atrás, deparei-me com um exemplo desses, envolvendo a nova marca de produtos do chef Alex Atala: Retratos do Gosto. Ao que parece, ele não ganha nenhuma compensação financeira com a marca. Cedeu todos os supostos lucros aos produtores rurais parceiros da marca.
A história toda começou com o arrojo de um pequeno produtor rural do Vale do Paraíba. Contam que o sr. José Francisco Ruzene, dono de um engenho homônimo, desenvolveu algumas espécies nobres e diferentes de arroz - o negro é o mais conhecido deles, mais tarde uma variedade do arroz cateto (o cereal se parece com a quinoa). Então, bateu na porta do restaurante DOM, apresentou-se ao chef Alex Atala, apresentou-lhe seus cereais e acertou em cheio. O chef se empolgou, procurou saber da economia do lugar e da contribuição que o engenho do “Chicão”, como é conhecido, poderia dar à região. Atala fez muito mais do que comprar o arroz do Vale do Paraíba, associou-se a uma empresa, uma espécie de holding de alimentos, e com muito charme e inteligência vem promovendo os produtos do senhor Francisco.
A empresa é a MIE do Brasil, focada na criação e desenvolvimento de alimentos mais saudáveis. Prega uma comercialização mais justa e sustentável, com uma partição melhor dos lucros. Ou seja, fomenta a agricultura de bons produtos e produtores conscientes e competentes. Ela não só compra esses bons produtos, mas subsidia os pequenos agricultores comprometidos com a qualidade daquilo que produzem. Só não sabemos se tudo isso é verdade ou marketing.
Toca aos chefs de cozinha, dentre eles, Atala, experimentar, testar os produtos que forem habilitados. Serão os responsáveis pela escolha dos produtos que integrarão a marca Retratos do Gosto. Na verdade, indicarão produtos e produtores.
Aí a suposta boa novidade. Hasteiam, enfim, a bandeira do produtor para fazer deles os protagonistas de toda a cadeia de produção. Passemos à vida prática para melhor compreensão. Quando compramos um alimento, compramos em primeiro plano a marca do produto, confiamos nesse ou naquele nome, nem conhecemos o produtor, não temos ideia de quem o produziu. Aliás, as grandes marcas não têm nenhum compromisso com esse ou aquele produtor, não raras vezes fazem leilão de preço.
A Retratos do Gosto tem a pretensão de mudar isso. Por exemplo, o próprio sr. Francisco é o garoto-propaganda do seu miniarroz. Com sua mulher, a senhora Rosinha Ruzene, ele aparece lado a lado com o chef Atala... Dá gosto de ver!
O miniarroz já está fazendo diferença no desenvolvimento daquela região. O produto é único, é 100% brasileiro. A sua descrição diz que possui aroma suave e levemente floral. É o menor grão do mercado, ideal para ser preparado al dente.
Surpreende quando utilizado em receitas de arroz tradicionais e representa uma nova oportunidade de criar pratos: é tudo o que um chef deseja. É possível que vocês conheçam o outro produto desse agricultor, o arroz negro Ruzene, aquele da caixinha amarela e verde. A partir de agora, a Ruzene abre mão de sua marca para se transformar também na marca Retratos do Gosto.
Mas, justiça seja feita, conforme Nina Horta (colunista da “Folha de S. Paulo”) desvendou, o tal arroz é fruto de pesquisas. É bom que se elimine os exageros, trata-se de um produto da seleção artificial desenvolvida por agrônomo do IAC (Instituto Agrônomo de Campinas) em colaboração com o agricultor José Francisco.
Por enquanto, a marca conta com poucos produtos, os arrozes do Chicão e outro produto da marca de chocolates Amma, mas geleias e mel estão em testes para integrar a lista. E qualquer produtor que tenha se sentido parte desse projeto poderá se candidatar.
Dica da semana
Nunca fiz uma enquete pra saber se existem mais adoradores de batatas fritas ou de doce de leite. Eu amo doce de leite e amo, sobretudo, aquele doce de pelotinhas que minha mãe fazia na minha infância. E até esse doce simples tem seus segredinhos.
Para as pelotinhas perfeitas, é preciso usar o leite de vaca gordo, o não pasteurizado, aquele que chegava nas casas de carroça, vindo direto do produtor, da roça... Vai achar isso hoje em dia, hein?! Mas, para garantir o sabor do doce da infância tem que ser esse, sem pasteurização.
O segredo é a gema. Para cada litro de leite coloca-se uma gema de ovo no leite frio, antes de levá-lo ao fogo. O açúcar segue a medida padrão. Atenção: é necessário mexer o doce o tempo todo, sem parar. Primeiro para dissolver por completo o açúcar e depois para que ele caramelize por igual.
Mas, repito: não adianta colocar a gema no leite pasteurizado, não dá certo!
Agora, se o desejo é um doce de leite cremoso, brilhante e aerado, coloca-se uma colherinha de café de bicarbonato. Faz-se o doce normalmente, mexendo sempre. Depois de pronto transfira para uma vasilha tipo marinex e bata sem parar até esfriar.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.