Tôni (parte 2)


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Chamava-se Tôni; estava no orfanato desde a idade de quatro anos. Eu podia perfeitamente imaginá-lo nessa idade, com os mesmos olhos cinza-azulados, e a mesma... Independência? Não, talvez esse não seja bem o termo. Integridade é uma palavra bem melhor. Apoia-se na coragem, mas é mais do que bravura. É honestidade como a conhecemos, porém mais do que honestidade, mais que ela própria.

Nessa tarde, Tôni trazia alguns bilhetes escritos a lápis nas mãos. E me disse:

- Vamos queimá-los com as folhas secas e os gravetos.

- Por quê? perguntei curioso.

A explicação que aquela criança de doze anos me deu ficou gravada em meu coração. Disse que uma de suas professoras do orfanato, irmã Lara, havia ensinado que de tempos em tempos faria muito bem à gente escrever todas as nossas tristezas, cada uma num pedaço de papel. Todas as mágoas, as saudades, as desesperanças. Depois, restaria juntar o amontoado de queixas escritas e queimá-las para que a fumaça levasse aquelas dores de alma para os ares, para o céu, e aí se dissipasse, sumisse, desaparecesse, o que provocaria também o desaparecimento dessas dores dentro da gente. Poderiam surgir outras mágoas... Aquelas, nunca mais!

Ao menos foi o que consegui entender de tudo o que a linguagem de uma criança de doze anos conseguiria explicar sobre o mecanismo desse procedimento.

Acenei firmemente com a cabeça.

Dirigimo-nos ao amontoado de ciscalhos.

Tôni apanhou os bilhetes que trazia nos bolsos e um pouco nas mãos. Misturou-os às folhas secas. Pediu-me para acender a pequena fogueira. Peguei uma caixa de fósforos e fiz o fogo necessário.

Logo a fogueira tomou forma. Fiquei em pé enquanto Tôni postou-se de cócoras, sentado sobre os próprios calcanhares. Baldo, o perdigueiro, farejava aqui e ali até que se quietou ao lado do menino.

Com efeito, o fogo se transformou em brasa, e o que era folha, graveto e papéis transformou-se em nuvem de fumaça muito branca naquela tarde de julho, subindo de forma espiralada, desmanchando-se em contraste com o azul desmaiado do céu de quase crepúsculo.

Tôni olhou demoradamente para cima, levantou-se, afagou o cachorro, inspirou profundamente e depois, de uma só vez soltou o ar. Parecia que a lição havia dado certo.

Que problemas, que dores de alma poderia carregar dentro de si uma criança de doze anos?

Ele retornou ao orfanato sem ao menos se despedir; retomei minha tese procurando focar-me no assunto, embora trouxesse o espírito indagativo e inquieto.

Um dia o cabo do machado se partiu. Tôni disse que poderia ser consertado na oficina do orfanato. Tentei dar-lhe dinheiro para pagar o conserto; recusou-se a recebê-lo:

- Eu mesmo pagarei disse. Eu o quebrei. Bati de mau jeito.

- Mas ninguém consegue bater sempre do modo certo, respondi-lhe.

Só diante desse argumento aceitou o dinheiro. Mostrava, com isso, ser responsável pelo seu descuido. Era um operador independente e queria fazer trabalho cuidadoso; assumia a responsabilidade sem condições.

Quase dez dias após esses acontecimentos, li num fôlder impresso pela Secretaria de Estado e Cultura de São Paulo a programação musical de fim de semana. A Orquestra Sinfônica de São Paulo iria se apresentar no pátio do Palácio Boa vista, residência oficial do governador, importante museu e notável centro de eventos culturais. No programa, concertos 1 e 2 para piano e orquestra de Chopin, tendo por solista Sequeira Costa, conceituado pianista clássico português, especialmente admirado por suas interpretações do repertório romântico. Não havia como perder. Pensei em levar Tôni comigo, talvez ele gostasse do convite e do programa. Fui até o orfanato e conversei com a diretora, irmã Maria. Ela ficou admirada com o convite e meu interesse pelo garoto, mas disse que era impossível, pois às 19 horas o orfanato se fechava. Disse-lhe que a apresentação da orquestra era vespertina e que estaria com o garoto no orfanato antes das 19 horas. Respondeu irmã Maria, diante do inusitado, que Tôni nem tinha roupas adequadas para sair, quanto mais ir a um programa do Festival de Inverno no Palácio Boa Vista. “Aliás”, disse ela, “lembrando bem ele tem nos seus guardados uma peça de roupa quase nova. Precisa ver se ainda serve nele.” Depois de muita insistência e contorneares diante dos problemas, a superiora consentiu, dizendo que era época mesmo de visitas aos pequenos órfãos. Faltava agora a resposta de Tôni ao convite. Chamaram-no. À distância, vi que uma das irmãs Pequenas Missionárias conversava baixinho com o garoto, expondo-lhe a situação. Ainda de longe ele me olhou, correu em minha direção e me abraçou, depois que me curvei para recebê-lo. Entendi como sim. Tudo foi providenciado.
 

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