Se olharmos para os números apresentados pela saúde pública brasileira nas últimas décadas, não seria justo deixar de reconhecer o esforço realizado por vários governos para dar um mínimo de atenção aos problemas crônicos que durante séculos devastaram a saúde da população mais pobre e carente.
Porém, se olharmos pelo viés da dignidade humana, tentando compreender essas questões não apenas pelo lado da dor e do sofrimento, mas também pelo viés da (des)organização do sistema e pela tranquilidade e desfaçatez com que muitos agentes tripudiam sobre o direito constitucional de acesso à saúde por parte de todos os brasileiros, talvez tenhamos um boa dose de decepção em relação aos avanços mencionados acima.
Em Franca, recentemente, foi dada mais uma demonstração desse triste estado de coisas. E pior, com direito a discussão, boletim de ocorrência e até briga entre médicos, profissionais que de forma geral, e historicamente, não costumam se envolver em atritos dessa natureza.
Como muitos devem se lembrar, um médico do Pronto Socorro Municipal, cansado de esperar por uma autorização de internação que não vinha, resolveu consegui-la na marra. Preocupado com a situação da paciente e talvez receoso de que algo de ruim pudesse acontecer com ela nesse momento em que estava sob sua responsabilidade, acabou colocando-a em uma ambulância da Prefeitura e rumou para a Santa Casa.
Os resultados dessa atitude corajosa, justa e coerente com os princípios constitucionais do direito, no entanto, seguiram por caminhos bem distintos. De um lado sobrou para o médico do Pronto-socorro Municipal a imagem de uma pessoa dedicada e preocupada com o bem estar de seus pacientes, a despeito de classes socioeconômicas. Um verdadeiro exemplo a ser seguido por vários outros médicos que infelizmente ainda não atuam dessa maneira. Por outro lado, porém, restou para o profissional da Santa Casa a imagem de “carrasco”, insensível e despreparado, o que acaba se estendendo, infelizmente, também para a Santa Casa.
Por mais que seja necessário seguir um mínimo de normas e determinações, não é possível que um profissional desse porte não tenha se sensibilizado com a situação da paciente, uma vez que ela já estava há mais de 12 horas sentindo dores e encaminhada para a cirurgia. Mesmo que não houvesse espaço naquele momento, tendo em vista a gravidade do caso, ele deveria ter sido o primeiro a encontrar uma maneira de recepcionar a paciente e não de dispensá-la como se não tivesse nenhuma responsabilidade sobre o caso.
No limite, a atitude desse médico, não fosse a insistência do outro, poderia ter causado danos maiores à saúde da paciente. Dessa forma, é importante que a Santa Casa apure esse acontecimento com bastante rapidez e transparência, dando à população os devidos esclarecimentos, uma vez que se utiliza de um montante nada desprezível de verba pública.
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