O número de pedintes e mendigos que se espalham pelas ruas de Franca está maior neste ano e o principal motivo são as drogas, principalmente o crack. Essa constatação é da Secretaria de Ação Social, com base em pesquisa feita no Abrigo Provisório. Neste ano, foram contadas 210 pessoas em “situação de rua”, contra 175 em 2010 - no ano de 2011 este estudo não foi feito.
Segundo o administrador do Abrigo Provisório, Adair Carvalho, também vem aumentando, desde 2010, os casos de moradores de rua com residência em Franca. “Do total de 210 pessoas em situação de rua, 120 são usuários de crack que possuem residência em Franca, mas não querem voltar para casa ou a família não os quer de volta.”
Segundo Carvalho, essas pessoas têm o vínculo fragilizado e precisam se reerguer, largar o vício e voltar a trabalhar. Mas isso depende da força de vontade deles. “Eles necessitam primeiramente ser encaminhados para uma clínica. Já fizemos isso com 37 usuários de drogas que estão em tratamento em comunidades terapêuticas.”
Na semana passada, os moradores de rua voltaram às manchetes após o Tribunal de Justiça de São Paulo dar liminar ao pedido da Defensoria Pública, proibindo a detenção dos pedintes por vadiagem. A Defensoria considera discriminatória e inconstitucional a operação deflagrada pela Polícia Militar, a pedido do juiz da Vara de Execuções Criminais, José Rodrigues Arimatéia.
CASOS
Welington Wilian Diniz Peixoto, 32, é um exemplo de morador de rua que tem casa em Franca. Ele veio de Claraval com a mãe aos 5 anos e conheceu as drogas ainda na escola, aos 13 anos. Parou de estudar, mas não deixou as drogas. Com 18 anos, Welington começou a dormir na rua para não ouvir as reclamações da mãe, Eloisa Helena Diniz. “Dormia na praça e em casas abandonadas, mas depois fui para cidades vizinhas procurar abrigo.”
Em Ibiraci, ele trabalhou como caseiro, teve uma companheira e dois filhos. Mas terminou o relacionamento de seis anos, morou no sítio do padrasto em Claraval por três anos e voltou para as ruas de Franca. Agora, está no Abrigo Provisório e quer se internar para largar o vício. Sua mãe, de 55 anos, sofre de câncer e diz não ter como ajudar o filho. “Eu falo pra ele largar isso, arrumar um emprego e um lugar para morar. Não posso mais receber o Welington por causa do meu outro filho, que não se dá bem com ele.”
O pespontador Reginaldo Alves de Freitas, 35, usuário de crack e álcool, é outro exemplo. Ele conta que, quando tinha 13 anos, veio morar em Franca com os tios e trabalhar na banca de pesponto da família, mas alguns anos depois conheceu as drogas. Acabou nas ruas.
A mãe e as irmãs também vieram para Franca e já tentaram ajudá-lo inúmeras vezes, com moradia e emprego, mas ele não conseguiu aproveitar as chances e largou o trabalho para gastar o dinheiro com drogas. De acordo com os familiares, ele não pode voltar a morar com a mãe e as irmãs se não melhorar. “Os maridos delas não me queriam lá, então eu dormia em construções, debaixo de marquises e pedia esmolas nas esquinas. Usava para beber pinga e fumar crack. Chegava a juntar R$ 50 numa tarde, mas no dia seguinte não tinha mais nada.”
Durante o dia, Reginaldo junta papelão com um carrinho emprestado de um ferro-velho. Vende no final do dia e à noite gasta todo o dinheiro. Ele revela que já foi abordado por policiais enquanto pedia esmolas, mas nunca foi preso por vadiagem. Algumas vezes, dorme no Abrigo Provisório, mas não aguenta passar mais do que três dias lá por necessidade de beber cachaça e usar crack, o que é proibido no abrigo. Reginaldo costuma viajar para cidades próximas com a passagem doada pelo abrigo da Prefeitura, mas sempre volta.
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