Nesta segunda-feira, será lançado em Franca o livro Querida, uma biografia autorizada de Sônia Menezes Pizzo, mais conhecida como Patrícia, colunista deste jornal. O lançamento será no Espaço Cedro, às 20h.
Patrocinado pela Francal Feiras, o livro nasceu pelas mãos da escritora e jornalista Lúcia Helena Maníglia Brigagão. São quase 200 páginas que mostram ao mesmo tempo as transformações que a cidade experimentou na segunda metade do século passado e os desafios enfrentados por essa mulher que precisou de muita coragem e perseverança para chegar aonde chegou, quebrando paradigmas e sofrendo vários tipos de preconceitos.
Preconceitos que começaram já na escola. Apesar de ser filha de taxista, foi matriculada na escola mais chique e desejada da cidade, o Colégio Nossa Senhora de Lourdes, onde estavam as filhas da elite francana.
“Sempre muito bem tratada pelas freiras. Mas em relação às colegas, eu percebia que elas não me aceitavam muito bem, creio que pela minha origem mais humilde”, arrisca Patrícia.
Mas essas questões seriam apenas um aperitivo para o que viria depois, quando no final da década de 1950 aceitou o convite de Alfredo Costa, antigo proprietário do jornal Comércio da Franca, para assumir a posição de colunista social.
“A pessoa que estava nessa função havia se casado com um homem que não aceitou que ela continuasse com esse trabalho. Como eu era muito comunicativa e o dr. Alfredo sabia que eu gostava muito de festas, acabou me convidando.”
Mesmo sem nenhuma experiência em colunismo, a até então professora Sônia resolveu aceitar. Mais precisamente em 1958, com a orientação e a ajuda de Alfredo Costa, ela estreou como colunista social da cidade. Nunca deixou o magistério, mas aos poucos a colunista foi se sobrepondo à professora, mostrando a todos a verdadeira vocação dessa francana de nascimento e coração.
Seu marido, Américo Pizzo, com quem se casou em 1951, além de não se opor ao trabalho, lhe deu todo o apoio.
“Eu devo muito do que conquistei ao Américo. Se ele não tivesse a cabeça boa que tinha, eu não teria feito o que fiz nem chegado até aqui”, diz Patrícia.
Mas esse apoio, fundamental para que enfrentasse o preconceito dos primeiros anos e continuasse seguindo adiante, não veio apenas do marido. Seus pais, Tininha e Guido, também foram importantes. Sem se preocuparem com o que falavam de sua filha, enquanto puderam eles também a incentivaram a continuar.
Em seus primeiros textos, ela assinava o próprio nome. No entanto, Alfredo acreditava que seria melhor usar um pseudônimo. Patrícia escolheu dois e os enviou para o jornal.
O primeiro era “Miss UFA” (União Francana de Amigos), em referência a um grupo formado por vários casais francanos que sempre estavam juntos nas festas. O segundo era “Patrícia”, retirado de uma música do compositor cubano Perez Prado, um mambo que estava fazendo muito sucesso na época.
De acordo com Patrícia, o dr. Alfredo preferiu o segundo e ela adotou o nome. Hoje, passados mais de 50 anos, ela afirma que já é mais Patrícia do que Sônia. Segundo ela, quando fala com alguém por telefone e se apresenta como Sônia, precisa explicar quem é.
“Mas quando falo Patrícia, com essa voz de disco LP riscado, como dizia meu amigo Abrahão Jorge Sobrinho, todo mundo já sabe quem é”, se diverte.
Com o passar dos anos, Patrícia foi ampliando seu trabalho na noite e na imprensa francana, mas não sem enfrentar muitas barreiras. Era uma época em que as mulheres não tinham muitos direitos e eram voltadas apenas para a família, para o lar e para o matrimônio. Época em que elas não podiam ir a festas sozinhas, nem muito menos falar com outros homens sem a presença do marido.
RÁDIO
“Eu tenho orgulho de ter quebrado vários paradigmas nessa cidade. Entre várias outras coisas, comecei a fazer um programa de rádio quando uma mulher não podia nem pensar em entrar em uma emissora”, lembra Patrícia.
Mas pagou um preço alto por isso. Sofreu muitas calúnias e foi acusada de muitas coisas, pois o que fazia não era considerado digno de uma “mulher direita” para a sociedade da época.
Ela se lembra de que nessas horas Américo olhava bem nos seus olhos e lhe perguntava se ela devia alguma coisa aqueles comentaristas maldosos.
“Eu lhe respondia o que ele sabia muito bem, que não devia nada e então ele me dizia: ‘vamos seguir em frente’. Ele sempre confiou em mim”, recorda.
Além do apoio de Alfredo Costa, Patrícia se recorda também da ajuda do dr. Jonas Dioclesiano Ribeiro. Além de médico querido e muito influente, tinha também alma de poeta, segundo ela, pois gostava muito de ler e escrever. Ele começou a ler os textos dela e certa vez a chamou em sua casa. Ela então aproveitou para desabafar, lamentando não ser aceita por muitas pessoas na cidade.
“Aí ele me disse que o mundo estava mudando, que aquele negócio de família importante estava acabando e que os vencedores da vida seriam aqueles dispostos à batalha”, lembra Patrícia.
Aos poucos ela foi conseguindo abrir as portas da elite francana. Começou a organizar festas e a ganhar o respeito da comunidade. Sua fama foi crescendo na mesma proporção que sua influência. Aumentou a dose de trabalho e participou ativamente de várias ações que tinham como objetivo melhorar e desenvolver a cidade.
Esteve junto com o prefeito dr. José Lancha Filho e vários empresários da cidade na criação da Francal, entidade na qual seu marido Américo também teve atuação importante. Até hoje, só não participou de uma única edição, quando por motivo de doença não pode viajar para São Paulo. Em todos esses anos, ajudou a divulgar a feira, a cidade e o calçado de Franca. Foi recebida por Hebe Camargo, Amaury Júnior, ainda em começo de carreira, e por vários colunistas da capital que também ajudaram a divulgar a feira.
Também foi uma das fundadoras da Apae, ela que tão bem conheceu esses problemas de perto, já que tinha um irmão com necessidades especiais que morreu com 21 anos.
Com todo esse trabalho, conseguiu construir uma carreira sólida, respeitada por quase toda a cidade e por várias de suas lideranças. Ela fez seu nome no Comércio, onde ficou 32 anos, ante de se transferir para o jornal “Diário da Franca”. Há dois anos, voltou ao Comércio e à Difusora.
“Quando eu ouço alguém dizer que eu sou uma guerreira, eu fico muito orgulhosa. Sempre lutei muito mesmo. Eu dizia para mim mesma que iria provar para essa cidade que eu não era aquilo que eles falavam”, desabafa Patrícia.
Hoje aos 81 anos de vida, Patrícia confessa que sempre foi muito medrosa, acreditando, inclusive, que foi justamente esse medo que a fez seguir em frente. Até hoje, apesar da experiência com a organização de eventos, ela diz que fica muito receosa durante os momentos que os antecedem. Mesmo sua tradicional “Noite EP”, que já vai completar 40 anos em 2012, ainda a deixa nervosa.
“Acho que apanhei tanto na vida que fico com muito medo de tudo. E para disfarçar eu sigo em frente”, conclui Patrícia.
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