Entrevista de Fernanda Testa e Edson Arantes
A camisa xadrez, a calça jeans, os sapatênis e a correntinha dourada com um pingente em crucifixo escondem bem que antes ali morava um palhaço. Mas basta ouvir a voz, o tom de brincadeira, o senso de humor e as piadas num discurso cheio de adjetivos que fica fácil identificar que o homem de xadrez é aquele cara que vestia calças coloridas, boina, peruca e cantava para uma tal de Florentina de Jesus. Francisco Everardo Oliveira Silva é Tiririca. Ou seria Tiririca o Francisco Everardo Oliveira Silva? “O Francisco é o Tiririca. O Tiririca é o Francisco, não tem como diferenciar, desvincular isso”, diz o hoje deputado federal do PR, que esteve em Franca no último dia 1º para apoiar a campanha de Marco Aurélio Ubiali (PSB) à Prefeitura.
Eleito com 1,3 milhão de votos em 2010, Tiririca foi o recordista de votos daquele ano e teve a segunda maior votação da história do país. No GCN, durante a visita que fez para conhecer a empresa, o deputado se mostrou mais que satisfeito com sua atuação no Congresso. “São 513 deputados. Eu sou um dos caras que nunca faltou, um dos 13”, afirma. E o que hoje é motivo de orgulho antes provocou um grande susto. “Quando eu me vi eleito, eu disse ‘caramba, é uma responsabilidade grandiosa’, porque você fazer humor é uma responsabilidade grande, mas não tem aquele peso, você vai fazer as pessoas rirem, é minha praia. Nos três primeiros meses como deputado eu fiquei lá dentro do plenário, pensando ‘onde é que eu estou, o que eu estou fazendo aqui?’”, confessa.
A troca da fantasia pelo terno e a gravata não mudaram o modo de ser de Tiririca. Segundo ele, a grande mudança em sua vida após ser eleito deputado foi a cobrança das pessoas. Não é à toa que o gabinete de Tiririca é o mais visitado do Congresso. “As pessoas vão achando que eu posso resolver (os problemas). Eles acreditam muito, então a cobrança é muito grande”, diz. Hoje ele afirma que o Congresso é uma escola, e que está lá para aprender. “Eu falava na campanha ‘não sei o que um deputado federal faz, mas vote em mim que eu te conto’. Na realidade, hoje eu já sei: trabalha muito e produz pouco.”
Apesar da expressiva votação, Tiririca diz que agora não pensa em se envolver com política de novo. A única aspiração do palhaço é terminar bem o seu mandato. “Vou fazer de tudo para não decepcionar as pessoas que votaram em mim. Sei que a responsabilidade é grande, sei que é complicado, mas eu estou trabalhando. Estou trabalhando e fazendo a diferença.”
Comércio da Franca - Como foi para o senhor, uma pessoa simples que saiu do Nordeste, de uma família pobre, disputar uma eleição pela primeira vez e conseguir 1,3 milhão de votos? A ficha já caiu?
Francisco Everardo Oliveira Silva, o Tiririca - Sabe o que acontece? Eu entrei [na disputa eleitoral] pelo seguinte: eu estava fazendo um programa, o Show do Tom, na Record, que passava num horário legal no começo, mas depois foi para depois da meia-noite, quase uma hora da manhã, às segundas-feiras. A galera que me via nos meus shows (eu faço shows até hoje), perguntava, “Você está onde? Não está mais na televisão?”. Eu dizia: “Estou no Show do Tom”. Aí me respondiam: “Mas esse horário de trabalho é muito ingrato”. Aí lembrei do convite, feito um ano antes, para eu entrar na política. Eu pensei, então: “Olha, é uma chance de divulgar mais o meu nome, porque na época da Florentina foi aquela “pancada”, né? Achei que era uma chance legal, porque ia “badalar”, mas pensei que não iria ganhar. Eu disse: “Vou tirar 5 mil votos e vou rir para caramba”. Mas a coisa foi fantástica, a nossa campanha foi maravilhosa, com o apoio do PR. Mas eu não acreditava ainda, achava que a galera ia levar na brincadeira, embora eu estivesse falando muito sério. Então, na minha campanha eu falava: “Eu não sei o que deputado federal faz, mas vote em mim que eu te conto”. Na realidade, eu não sabia mesmo. E tinha outras coisas que a gente falava, tipo “eu vou ajudar muito os necessitados, inclusive a minha família”. Coisas que jamais um político falaria. E deu no que deu, essa votação maluca, essa coisa linda. E aí, quando eu me vi eleito, eu disse: “Caramba, é uma responsabilidade grandiosa”. Porque fazer humor é uma responsabilidade grande, mas não tem aquele peso. Agora, um político já é mal visto pra caramba. Aí, nos três primeiros meses, eu fiquei lá dentro do plenário pensando o que estava fazendo lá. Mas aí tive o meu momento “coruja”: ficava observando, prestando atenção. Dos três meses em diante, graças a Deus, o resultado é superpositivo. É muito bacana o carinho. O meu gabinete é o mais visitado da Câmara. Às terças, quartas e quintas-feiras, a gente recebe 150 pessoas por dia no mínimo, do país todo. Vai gente para pedir, para tirar foto, para conhecer, para agradecer. É muito lindo, é uma coisa bacana. Isso foi me dando força. O deputado tem o direito de destinar R$ 15 milhões, valor que parece que todo ano sobe, né? Nós mandamos até uma verba para Franca, que foi sensacional, R$ 500 mil [para a Santa Casa].
Comércio - E como foi trocar a fantasia pelo terno e a gravata?
Tiririca - Foi muito difícil. Eu me sentia engessado ali, com aquela coisa de gravata e tal. No começo eu pensei que fosse só assim, que tinha que andar dessa forma, social. Aí eu cheguei para a minha assessora e falei: “Faz o seguinte: vê o que não pode usar”. Porque eu uso brinco, por exemplo, e lá não pode. Então, eu já joguei o brinco fora. Aí, ela falou: “O que não pode faltar é gravata e paletó. O resto você pode usar. Sandália de dedo não, mas sapato, tênis e tal pode”. Então eu resolvi “ser eu”. Os colegas tiram sarro porque eu vou com uma gravata de uma cor, calça jeans, camisa para fora da calça. Nada combina, mas eles me respeitam e me aceitam.
Comércio - O senhor se elegeu como o personagem Tiririca. Hoje, na Câmara, o senhor é o Tiririca ou o Francisco Everardo?
Tiririca - O Francisco é o Tiririca. O Tiririca é o Francisco, não tem como diferenciar, desvincular isso. A partir dos três primeiros meses de mandato, estou sendo eu, o Tiririca, aquele cara que a galera conhece, que é brincalhão, que sabe trabalhar, um cara responsável, pai de família, um cara humilde.
Comércio - Como foi enfrentar, antes mesmo da posse, aquele processo de analfabetismo?
Tiririca - O que acontece é o seguinte. Ninguém, nem eu acreditava que ia ser eleito. Fui o mais votado do país. Fui o segundo mais votado da história do país. Isso é fantástico. Um palhaço de circo, “bicho”. Ninguém queria engolir aquilo, entendeu? Cara que tem não sei quantas faculdades, políticos antigos e tal olhavam e falavam: “Não acredito, não vamos deixar assumir, não”. É preconceito, né? É uma loucura. Mas, graças a Deus, foi superado e estamos aí para trabalhar e não para fazer graça. Lá dentro são votações, comissões. É coisa seríssima. Você não para, é um negócio maluco. Eu falava na campanha “não sei o que um deputado federal faz, mas vote em mim que eu te conto”. Na realidade, hoje eu já sei: trabalha muito e produz pouco.
Comércio - Isso o frustra?
Tiririca - Sim, porque o sistema é engessado. Não depende de você, entendeu? Eu cheguei com essa votação, mas o meu voto tem o mesmo valor dos votos do cara que chegou com 15 mil, 20 mil votos. É interesse de partido, interesse de governo, então é complicado. O bom para mim é que o partido me deixou livre. Minha primeira votação foi fantástica, foi a votação do salário mínimo. Fui contra o governo, fui contra o partido, fui contra todo mundo. Eu voto de acordo com o que eu achar que é legal, que é bom para o povo.
Comércio - Qual a sua opinião sobre o caso Demóstenes [senador acusado de quebra de decoro parlamentar por suas supostas ligações com o bicheiro Carlinhos Cachoeira]? O senhor acredita que ele será cassado?
Tiririca - Olha, tem que apurar. A gente vê pela imprensa, pela mídia. Acho que, se for culpado, tem que ser cassado mesmo, porque isso é uma vergonha para o brasileiro, para os políticos.
Comércio - Qual o projeto que o senhor mais destaca nestes quase dois anos como deputado?
Tiririca - Nós já apresentamos sete projetos. A gente sabe que é difícil ser aprovado, mas uma coisa que me deixa muito feliz é que nós apresentamos um projeto para o pessoal do circo. Nós fizemos um barulho porque o circo é muito discriminado.
Comércio - Então o resultado está acima do que o senhor esperava?
Tiririca - Totalmente. Está acima do que todo mundo esperava.Tu esperava que um palhaço ia fazer um negócio desse? Eu estou fazendo muito bonito! São 513 deputados. Eu sou um dos caras que nunca faltou, um dos 13. Estou fora desse sistema de picaretagem. Estou nas comissões, nas votações, nas discussões.
Comércio - O senhor dizia, durante a campanha, que iria ajudar sua família. Já conseguiu isso?
Tiririca - Não pode [risos]. Se pudesse, eu teria colocado a família inteira para trabalhar. Só de irmão por parte de pai eu tenho 18. Um deputado tem direito a 25 assessores, dava pra eu ajudar a minha família legal [risos]...
Comércio - O senhor pretende se candidatar a deputado novamente? Tem outras aspirações políticas?
Tiririca - Eu não penso em nada disso. Eu penso em terminar esses pouco mais de dois anos que eu tenho e, se puder ajudar o povo, as pessoas, eu vou ajudar. Daí para a frente, eu não sei. Sinceramente, eu quero terminar bem esse mandato. Eu estou feliz, então isso é bacana. Se você está feliz, acho que as coisas saem de uma forma bacana.
Comércio - O senhor teve em Franca mais de 5,2 mil votos. O que gostaria de falar para os eleitores que votaram no Tiririca?
Tiririca - Só tenho a agradecer. Dizer muito obrigado por terem confiado em mim. Eu quero desde já dizer que vou fazer de tudo para não decepcionar as pessoas que votaram em mim.
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