As sombras da noite


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Desde os tempos de infância, na roça, que a noite me parece rodeada de mistérios. E mesmo na cidade, depois que aprendi, com a Astronomia, que ela é apenas uma sombra provisória da própria Terra, projetada do lado oposto ao que bate o Sol, ela ainda continua me fascinando. Chega sempre sorrateira e, como um manto permeável, avança, alheia a tudo, cobrindo planícies, serras, vales e colinas, campos cultivados, florestas e cidades. O lusco-fusco que se faz entre a claridade plena e a escuridão é espetáculo indescritível, espaço-tempo mutante, ambiente ideal para a meditação e para o recolhimento e, enfim, para o contato com o mundo mágico que habita cada um de nós. Na roça esse momento é anunciado pelas rãs, desde os banhados, quando iniciam o seu concerto ritmado e despertam os pirilampos para o seu balé cintilante. Ou, antes ainda, pelas garças brancas, quando cruzam o céu aos bandos, voando para o abrigo que só elas sabem onde fica.

Na cidade o período de semi-sombras é indicado pela débil luz das lanternas dos automóveis, que vêm acrescer um quase-nada de calidez à brandura da paisagem. Por todos os cantos, como que despertando de um sono profundo, as lâmpadas da iluminação pública vão se avivando, uma a uma, na vã tentativa de suprir a claridade do dia.

Conforme avançam as horas o negrume arrefece nos rincões mais distantes dos centros urbanos. Isso se não há lua cheia, pois que senão a penumbra dourada reinará sobre a imensidão por grande parte do período destinado às sombras. Nas cidades, após se firmar, a iluminação artificial é a mesma e igual desde o entardecer até a aurora do outro dia. E a Lua, aí quase uma ficção, tem sua luz apequenada e faz pouca ou nenhuma diferença.

Nos campos, os mesmos sons que anunciaram a chegada das sombras vão cessando aos poucos. O concerto das rãs não passa muito das vinte e uma horas. Depois cessam os sapos e cágados que as acompanharam. Um ou outro piado de ave noturna e o silêncio se instala até a madrugada. Nas grandes cidades, a lida diuturna produz um ruído constante, um zumbido onipresente, que tem o seu pico na boca da noite, no momento máximo do trânsito, na hora do rush. Mas que também vai arrefecendo, baixando, minguando até que, próximo da meia noite, nos bairros residenciais mais afastados não passa de um murmúrio distante.

Qualquer atividade, à noite, apresenta sempre um quê de imponderável. Seja uma jornada de trabalho, um baile tradicional, uma festa popular Ou até mesmo uma agitada balada de hoje em dia. Talvez seja porque o homem prefira a claridade às sombras Talvez venha daí o seu fascínio por perscrutar segredos, inclusive os da noite e suas sombras!
 

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