Tôni (parte 1)


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O orfanato, dirigido pela organização católica Pequenas Missionárias de Maria Imaculada, ficava no alto de uma das colinas de Jaguaribe, em Campos do Jordão. Nos meses gelados de julho, quando ocorria o Festival de Inverno, ainda sob a direção do maestro Eleazar de Carvalho, parte dos órfãos e filhos de tuberculosos pobres que se instalava no Preventório Santa Clara, logo no início da cidade a quem chega da via Dutra, era alojada neste orfanato, para dar lugar aos bolsistas de canto coral e instrumentistas do festival de música clássica, que durava os exatos 31 dias do mês.

Fui para lá em pleno mês de julho, em busca de isolamento para escrever o final de minha dissertação de mestrado, um trabalho difícil de concluir. Esperava que o ar da montanha me livrasse do profundo estresse em que me encontrava, dadas às pesadas atividades acadêmicas numa universidade. Além do mais, tinha saudade do colorido vivo e alegre das hortênsias que se viam por todos os cantos da cidade, dos pinheiros araucária, dos ares frescos da Mantiqueira, do pinhão, do envolvimento dos músicos oriundos das mais longínquas localidades com o cotidiano de Campos do Jordão. Encontrei tudo isso à volta de um pequeno e rústico chalé, algumas centenas de metros além do sítio do orfanato, e ao qual pertencia. Aluguei-o por um mês. Não buscava conforto nem luxo, apenas um lugar arejado e limpo.

Na ocasião, necessitava de pequena quantidade de lenha. Achas eram encontradas na cidade, mas com inconveniências: vendiam-nas só em grande quantidade, o preço era exorbitante, o local muito distante e eu precisava de apenas de um mínimo por dia. Assim, quando ocupei o chalé, perguntei por alguém que rachasse lenha para a pequena lareira e que fizesse a limpeza ao redor. Fazia muito frio, talvez um dos mais rigorosos invernos na história da cidade.


Uma tarde, quando escrevia à máquina entre livros de referência abertos sobre a pequena mesa de madeira, parei com um pequeno sobressalto. Um menino estava à porta. Um perdigueiro solto, que rondava pacificamente o lugar e que logo se tornaria minha companhia, estava ao lado da criança e não tinha anunciado a sua presença. O menino devia ter uns doze anos, mas era pouco desenvolvido. Usava macacão, camisa de algodão branco, pesado casado velho e puído, botinas. Disse, sem se apresentar:

- Eu posso rachar um pouco de lenha hoje.

- Você? Mas você é tão pequeno!

- O tamanho não importa respondeu. Alguns meninos grandes não sabem rachar lenha direito. Há muito tempo que eu racho lenha para o orfanato. E se sobrar tempo, começo ainda hoje a limpar o chão em volta do chalé.

- Muito bem. O machado está atrás do chalé. Veja o que pode fazer.

Voltei ao meu trabalho e ele começou a rachar. Os golpes eram tão compassados e firmes, que em breve me havia esquecido dele, ouvindo o ruído como se fosse uma chuva constante. Mergulhei em águas profundas de minha tese. Creio que devia ter passado uma hora e meia quando ouvi os passos do menino pisando sobre folhas mortas e secas, gravetos, à entrada do chalé. Baldo, o perdigueiro, agora latia amigavelmente.

Dirigi-me à entrada e abri-lhe a porta:

- Tenho de ir jantar agora disse ele, - mas posso voltar amanhã.

- Vou pagar por seu trabalho disse eu, pensando que talvez devesse insistir para que me enviassem um menino mais velho.

Dirigimo-nos para o quintal do chalé e fiquei surpreendido com a quantidade de lenha que ele havia rachado.

- Puxa! Você fez tanto quanto um homem. Um senhor monte de lenha! comentei.

Olhei para ele, examinando-o realmente pela primeira vez. Tinha os cabelos ruivos, da cor da brasa da lareira; os olhos muito francos lembravam o céu de montanha quando está para chover, aquele cinza sombreado... Dei-lhe 3 cruzeiros.

- Você pode voltar amanhã de tarde disse-lhe. E muito obrigado.

Ele me olhou, olhou as notas em suas mãos e pareceu querer dizer alguma coisa, mas não o conseguiu e se retirou.

No dia seguinte, ao romper da manhã, fui acordado pelo barulho de quem ajunta gravetos e folhas secas. Depois os golpes de machado. Novamente o som era tão compassado e fazia tanto frio que adormeci de novo. Quando me levantei, o menino já havia partido e uma pequena pilha de achas estava amontoada contra a parede do chalé, cuidadosamente arrumada para não ferir as hortênsias rasteiras de encosta. Ele voltou depois das aulas e trabalhou na limpeza do gramado. Amontoou os ciscalhos e as folhas um pouco distantes do chalé, no início do declive da colina, como se estivesse disposto a atear fogo neles, embora não o fizesse... Ainda.
(Continua).
 

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