Retratos em preto e branco


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Nelas, todos os dias, reflete-se o calor partícipe (toma-se lado) ou a fria ignorância (até em função do desconhecimento que deriva da falta de informação ou de cultura) dos cidadãos, perante alegrias e desilusões cotidianas. Sob o ponto de vista sociológico, dessa leitura depreendem-se as tendência da vozes populares, não uma única voz. Quem lê, adquire consciência e se serve dos pontos de vista conflitantes para, finalmente, decidir com sua própria cabeça. É o contraditório que se aclara e poupa tempo, permitindo-nos posicionar a partir de nossas próprias experiências, crenças e valores.

Cartas de leitores são, então, demonstração da média do pensamento popular sobre um fato. Cá neste Comércio, no exercício da Editoria de Opinião, lanço-me à leitura de 400 comentários diários para preparar a seção de cartas da página A2. Tem-se falado muito de impunidade.

As pessoas estão incomodadas. Há muito desconforto no ar. Cidadania anda em baixa. A maioria, normalmente calada, começa a sair de suas tocas para gritar, expressar preocupações com o que considera descritérios legais. Ao início, pensavam – e tem muitos que ainda pensam –, que é responsabilidade de órgãos policiais investigar, encontrar e tirar bandidos do seio da comunidade, e, especialmente, mantê-los detidos, isolados. Hoje, boa parte dos que consomem informação já sabe que a impunidade que se estabelece e consolida é resultado – sim! – da mera e esperada aplicação da lei! Já se compreende que juiz não julga de acordo com o que acha, mas, ao rigor da lei. Boas ou ruins, são as leis é que valem. São elas que devem cumpridas e não há escapatória.

Começa-se a compreender que são as leis é que têm que mudar. Isso passa, necessariamente, por legisladores – deputados, senadores, vereadores – melhores, mais qualificados, de férrea vontade contra benesses que o exercício do poder habitualmente disponibiliza. Compreendido isso, pipocam nos quatro quadrantes do País gritos ainda isolados, mas que demonstram que é com voto consciente que se mata corrupção e impunidade.

Há um site importantíssimo – www.transparencia.org.br –, que todos têm que conhecer e frequentar com regularidade. Nele estão os históricos dos parlamentares (‘processos na Justiça, como gastam o dinheiro que recebem, quem financiou suas campanhas eleitorais’). Também, grande banco de dados com noticiário sobre corrupção. Há, ainda, uma ferramenta que verifica se licitações obedecem à lei e emite, até, um relatório de conformidade.

Melhor do que tudo, o site é comandado por organização independente e autônoma, fundada em 2000 por indivíduos e organizações não-governamentais comprometidos com o combate à corrupção. Sem esse terrível mal, quem sabe em algum dia da vida de nossos filhos ou netos as leis se tornem, de novo, como deveriam ser, garantidoras dos direitos dos bons e execradora dos que entendem que deveres são para os outros, não para eles.

RETRATO NU E CRU
Legisladores, envoltos com grandes discussões, imensos montantes financeiros, holofotes, grandes projetos (pessoais) e muito esforço para se manter no poder, deixam para lá a vida comum, aquela que exige de nós saber o preço do pão, da saúde pública, da segurança, já que nos sobra(!) muito pouco depois que pagamos os altos impostos deste Pais!. Penso que seja isso – saber o que as pessoas comuns pensam e como dão cambalhotas para sobreviver – o que falta aos legisladores para cumprir o que lhes delegamos, fiscalizar o jogo político sem se locupletar, garantir direitos e, especialmente, deveres, com parcimônia e democracia. Conhecessem, não errariam na construção das leis e a corrupção, que requer impunidade para resistir, certamente desapareceriam.

VÍTIMA DO MARIDO
‘É melhor prender eu e minhas filhas para (nos) proteger dele. Falei isso para o promotor, mas até ele ficou assustado com minha frase. É o único jeito que vou ter paz, é o único jeito que vou dormir, porque desde setembro não durmo, não como, estou só me acabando.’
Mulher agredida, nome preservado - Franca (SP)

MATADOR DE RESTINGA
Matou, se entregou depois de um mês, confessou e, simplesmente, está em liberdade. Essa justiça é de dar gosto, né?!
Adriana Cardoso de Oliveira - Franca (SP)

PEGOS POR FURTO
Os caras (sic) furtam, são fichados e liberados? Advinhem o que vão fazer logo depois de serem soltos?! (...)
Daniel K. - Franca (SP)

VADIAGEM
“O dinheiro que se arrecada por um pedinte, por um vadio no semáforo, vai realimentar o tráfico, (...). Assim, o ciclo vai ficar mais volumoso do que já é. Se a polícia fizer o trabalho adequado, a tendência é amenizar a situação”
José Rodrigues Arimatéa, juiz de Direito em Franca (SP)

“A detenção de pessoas pela contravenção penal de vadiagem é inconstitucional por ferir a liberdade de ir e vir dos cidadãos.”
Antônio Machado Neto, defensor público em Franca (SP)

“Interferir na luta contra (...) a vadiagem (...) é grave ofensa àqueles que levantam cedo (...), deixam suas casas, passam o dia no trabalho para (se) manterem honestamente (...). Se a vadiagem tiver incentivo e pessoas que a financie, então, trabalhar para quê?”
Vanessa Aparecida Cultri, cidadã - Franca (SP) 
 

Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br

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