Felicidade e Falsidade


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Fiquei pensando, outro dia, como as palavras felicidade e falsidade são, sonoramente, muito próximas. Trata-se de uma fonética muito parecida. Seria isso uma mera coincidência ou haveria algum mistério escondido por trás desses sons? Fui buscar a origem das duas palavras para ver se existia alguma semelhança etimológica, mas a não ser pelo fato de as duas terem vindo do latim, nada mais se assemelhava. Felicidade veio de felix que em latim quer dizer fértil, fecundo. Na sua raiz indo-europeia, traz também o conceito de amamentar, de onde surgiu filho e fêmea, aquela que amamenta. Assim, felicidade é aquilo que nos satisfaz, nos alimenta e consequentemente, nos deixa alegres. Já falsidade, que também vem do latim falsus, significa tudo que é errado, incorreto, enganador, o que é oposto à verdade.

Nos nossos dias, torna-se fácil observar que nosso conceito de felicidade se agregou, principalmente, aos bens de consumo. Ser feliz é poder ter o melhor celular, tablet ou computador. A maior tela de TV. O carro com mais acessórios, a roupa de grife e o tênis que está na moda. Isso sem falar na casa própria, toda enfeitada com os últimos modelos de eletrodomésticos. Nada disso é ruim ou errado, mas pode ser considerado falso quando em contraponto com o verdadeiro conceito de ser feliz. Se a felicidade é, na sua raiz, aquilo que nos alimenta e nos satisfaz, ela conversa mais com o nosso espírito do que com o corpo, já que o corpo precisa de alimentos passageiros e a alma necessita de cuidados perenes. Como podemos então misturar esses valores e nos sentir saciados e felizes? Todos esses bens compráveis trazem certa satisfação, mas ela dura apenas o tempo necessário para que outro desejo apareça para ser comprado. E assim vamos de desejo a desejo, buscando a felicidade em algo que não está nesse caminho. É com
o se tivéssemos o sonho de ir a Paris, mas tomamos o caminho das Américas. Por mais que caminhemos, não chegaremos nunca. Há um oceano que nos separa e nós não sabemos. Penso que temos errado o caminho da felicidade... Temos caído na falsidade. Estamos vivenciando conceitos incorretos, errados, muito falsos... Temos nos enganado.

Jean-Yves Leloup, no seu livro Caminhos da Realização nos alerta: “Nós podemos nos enganar, mas não podemos mais nos mentir”. O que ele sinaliza com essa frase é que o erro pode ser cometido por falta de conhecimento pelo nosso inconsciente, mas mentir para nós mesmos é ter consciência de que estamos caminhando por caminhos inadequados e teimamos em persistir neles. Não estamos mais enganados, estamos nos mentindo. O fato de não mais mentir supõe um estado de evolução, uma tomada de decisão que permite nos olhar em nossos limites, mas ao mesmo tempo não abrir mão dessa exigência de autenticidade. O que estou buscando para minha vida? O que me alimenta? Qual é o alimento de que realmente preciso?

Então, felicidade e falsidade têm nos confundido, não só pela semelhança dos sons... O engano pode nos levar a falsos alimentos... A mentira pode conduzir nossa felicidade a morrer de inanição...
 

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