A família Zigante mora numa casa simples numa das ruas sem asfalto do Prolongamento do Jardim Santa Bárbara. A dona de casa Dirce Helena Salomé Zigante, 59, o marido Claudemir Zigante, 46, que é pedreiro, o filho Claudvandro, 21, e a neta Gabriely da Silva, 2, se mudaram para o imóvel há cerca de um ano. O casal está pagando as prestações da casa. Mesmo investindo num bem próprio, Dirce está insatisfeita com o bairro. “Esse lugar é um buraco, é muito difícil aqui”, resume ela ao comentar as condições que encontra ao redor da sua casa.
Os quatro moram na rua Maura da Silva Santana. Encontram dificuldades para andar pelo próprio bairro porque nem todas as vias estão identificadas. A dela tem placa afixada nos postes, mas não estão em todas as esquinas. “É difícil encontrar as ruas aqui porque nem todas têm as plaquinhas. Estava procurando um pedreiro esses dias para fazer um serviço e não achei a rua. A gente fica perdido.”
Mais grave do que a falta de identificação dos logradouros é a falta de asfalto. A terra castiga a família. Dirce chega a regar a rua para amenizar a poeira que teima em invadir sua casa e afetar a saúde dos filhos, que sofrem crises de bronquite. “Nossa, Deus, essas ruas de terra são ruins demais. Comprei uma mangueira que alcança a rua e todo dia jogo água, mas quando o carro passa não tem jeito, já traz a poeira lá de cima.”
Sem calçadas na porta dos imóveis, o meio da rua é a passagem usada por Dirce. “Andar com o carrinho de bebê carregando minha neta é horrível.”
À noite a situação complica. Os postes de iluminação até chegaram ao Prolongamento do Santa Bárbara, mas muitos acabam alvo de vândalos. É comum encontrar as lâmpadas quebradas e os braços dos postes danificados. “Quando chove a gente sempre fica no escuro, a energia sempre acaba.” Na rua no fim do bairro, todos os postes estão danificados e com as luzes quebradas.
Não bastasse a poeira e a escuridão quando há tempestades, a família Zigante ainda convive com o cheiro de esgoto na porta de casa. “Tem uma água que desce em frente minha casa, só que não sei de onde vem. Acho que são casas sem esgoto que solta tudo nas ruas. É um fedor horrível que vem para dentro de casa, tem que fechar a porta e janela para conseguir comer”, disse Dirce. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em Franca, esse problema se repete em pelo menos 409 casas, onde os moradores declararam nas entrevistas do Censo 2010 que há esgoto a céu aberto ao redor dos seus imóveis. Bueiros inexistem no bairro. O mesmo que acontece próximo a outras quase 40 mil casas em Franca.
O cheiro ruim perto da casa de Dirce não é fruto apenas do esgoto. A coleta de lixo passa pela rua três vezes por semana, mas as vias nem sempre estão limpas. Sacos de lixo sempre são vistos esparramados. “Acontece que nem todos os vizinhos têm suporte de lixeira porque muitos foram arrancados por vândalos e eles colocam o lixo no chão, aí os cachorros esparramam tudo.”
Por fim, Dirce sonha com a sombra fresca de árvores na porta de sua casa. Mas as três tentativas de plantio foram frustradas. “Hoje o que tem aqui perto é só o chuchu que plantei e mato na esquina porque as três mudas que plantei na porta da minha casa a molecada arrancou. O vizinho da frente teve que podar a árvore porque os marginais estavam usando drogas lá embaixo. Sinto falta de árvores.” Mais de 10.800 casas de Franca sofrem a mesma carência quando o assunto é arborização.
A realidade vivida pela família Zigante reflete parte do estudo “Características urbanísticas do entorno dos domicílios” feito pela primeira vez pelo IBGE no Censo 2010.
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