Ausência de rampas em calçadas dificulta circulação de cadeirantes


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O técnico em informática Rodrigo Moreira Capricio ‘salta’ com a cadeira de rodas em calçada sem rampas e com mato no restante do percurso na avenida Paulo VI
O técnico em informática Rodrigo Moreira Capricio ‘salta’ com a cadeira de rodas em calçada sem rampas e com mato no restante do percurso na avenida Paulo VI

 

 

A falta de rampas nas calçadas de Franca tem dificultado a vida de deficientes físicos que dependem de cadeira de rodas. A falta de calçadas e a má conservação delas também contribuem para essa limitação na hora em que eles buscam se locomover de um lugar a outro. A inexistência de rampas para cadeirantes no município é apontada por dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), baseados no Censo 2010. O estudo “Características urbanísticas do entorno dos domicílios”, divulgado na última sexta-feira, 25, revela que dos 95.846 domicílios de Franca, apenas 3.794 possuem rampas em suas proximidades. O índice corresponde a 3,96%, abaixo da média nacional, que aponta que as rampas estão presentes no entorno de 4,7% dos domicílios.

A Prefeitura, no entanto, diz que tem atendido à solicitação de moradores e de representantes de entidades para rebaixamento de guias em diversos bairros. De janeiro de 2011 a abril deste ano, teria sido instaladas cerca de 200 rampas no município (leia mais em texto nesta página).

Para o Promotor de Defesa das Pessoas com Deficiência em Franca, Fernando de Andrade Martins, que está afastado do cargo por problemas de saúde, mas é autor de ações que obrigam o município a cumprir a lei de acessibilidade de deficientes, classificou como “ridículo” o número de rampas existentes na cidade. “Infelizmente não faz parte das políticas públicas o atendimento pleno às pessoas com deficiência. Quem tem que fazer as rampas é a administração pública e, se não o faz, o meio de obrigá-la é mover uma ação judicial, mas o processo demora de dois a três anos. Obrigar o poder público a cumprir a lei é ridículo”, disse o promotor.

O presidente da Adefi (Associação dos Deficientes Físicos de Franca e Região), José Carlos Gomes, teve sequelas de paralisia infantil e desde 2005 só se locomove sobre uma cadeira de rodas. Para ele, Franca está atrasada na questão da acessibilidade por ser um conceito recente. “Em virtude de ser algo novo, a cidade ainda não se adaptou a esta realidade. Temos hoje o transporte adaptado que incentiva os cadeirantes a passearem mais e muitos saem mais de casa, mas outros ainda ficam presos por essas dificuldades de acesso.” José Carlos afirma que os pontos com maior frequência de pessoas necessitam ter guias rebaixadas para facilitar o acesso aos cadeirantes. Ele levanta outro problema enfrentado pelos deficientes físicos. Mesmo locais com rampas possuem obstáculos. “Várias rampas foram construídas no Centro da cidade, mas com o recapeamento acabou se formando uma valetinha entre o asfalto e a rampa e muitas vezes a cadeira engastalha. Elas precisam ser refeitas.”

ELE ENFRENTA

A Adefi possui mais de 300 pessoas cadastradas. O cadastro está sendo refeito e até o momento foram atualizados 174 registros. O técnico em informática Rodrigo Moreira Capricio, 28, é um dos associados. Ele enfrenta desafios diariamente para conseguir se deslocar em Franca. “Saio todos os dias na rua, vou ao Centro pelo menos uma vez por semana e ando de ônibus direto.”

Rodrigo depende da cadeira de rodas há mais de cinco anos. Em setembro de 2006, ao separar uma briga entre irmãos amigos dele, foi esfaqueado. Dois golpes atingiram a coluna dele, na região lombar, e um na barriga. A lesão nas costas o deixou paraplégico. Seu corpo, da cintura para baixo, é anestesiado.

Superado o trauma da nova realidade, Rodrigo se tornou uma exceção entre os cadeirantes e, como se estivesse em um carro, atravessa a cidade em cima da cadeira de rodas. São poucos os pontos onde encontra rampas e calçadas para circular com ela. Nos locais sem rampas de acesso, ele salta com a cadeira de rodas para subir ou descer da calçada. Circula entre carros ou na contramão.

Na tarde de ontem, a reportagem acompanhou Rodrigo no trajeto entre sua casa, no Jardim Alvorada, e a avenida Paulo VI. Ele se arrisca. Nessa avenida, ele passa com a cadeira de rodas na contramão, no meio da rua, porque de um lado não há calçadas e do outro há o canteiro central que é gramado e tem árvores. Num dos trechos percorridos ontem, havia o canteiro no meio da avenida e na outra lateral da pista, um terreno baldio tomado por mato e lixo. Medo de ser atropelado ele tem, mas disse que “quanto a isso, Deus protege”. “Andar no meio da rua com carro, moto e até caminhão do lado é difícil.”

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