Argentino de nascimento e brasileiro por opção, Hector Luis Saint-Pierre, 60 anos, pode ser considerado hoje um cidadão da América do Sul. Nascido em Quilmes, na província de Buenos Aires, engajou-se na luta contra a ditadura e, como vários jovens de sua época, pagou um bom preço por isso. Em 1978, precisou fugir para o Paraguai, onde viveu exilado por um ano, até ser preso e ser deportado para a Argentina.
Preso e torturado, acabou posteriormente caindo na clandestinidade, algo que ele considera pior do que o exílio.
Cansado dessa vida, em 1982 veio tentar a sorte no Brasil e começou a produzir artesanato para sobreviver. Mas foi levado a Unicamp por um amigo argentino e, mesmo sem ter terminado sua graduação em Filosofia na Universidad Nacional de La Plata, Hector foi autorizado a prestar um exame e conseguiu entrar no mestrado em Lógica e Epistemologia da Ciência.
“A partir do mestrado, me entreguei completamente aos estudos. Eu não tinha férias, dizia para mim mesmo, tinha congressos”, lembra Hector.
Posteriormente, abraçou o doutorado em Filosofia Política também na Unicamp e continuou concentrado em seus estudos, defendendo uma tese que se transformou no livro A Política Armada, que, segundo ele, foi seu acerto de contas com o passado.
“Consegui virar a página de minha vida, sem nenhum rancor. Para mim a guerra acabou mesmo, de coração.”
Uma virada de página que, ironicamente, foi aos poucos aproximando sua vida, seu trabalho e seus estudos de seus antigos algozes, os militares.
Após concluir seu pós-doutorado na Universidad Autónoma de México e entrar para a Unesp em 1993, Hector direcionou suas pesquisas para a área da defesa e segurança internacional e se tornou professor titular da Unesp.
Dedicou-se, então, totalmente a essa linha de estudos, desenvolvendo trabalhos sobre estruturas regionais de defesa, Forças Armadas, história militar da guerra e da estratégia, diálogo entre defesa e diplomacia, segurança internacional e teoria da guerra.
Atualmente, Hector é professor de graduação e pós-graduação no curso de História e de Relações Internacionais da Unesp, em Franca, e atua também como professor-adjunto da pós-graduação em Relações Internacionais do Programa Inter-institucional (Unesp/Unicamp/PUC-SP) San Tiago Dantas.
Além disso, fundou e coordena o Grupo de Estudos da Defesa e Segurança Internacional (Gedes), que tem sede em Franca, e dirige o Centro de Estudos Latino Americanos (Cela), ambos da Unesp. No dia 19 de abril, ele foi condecorado com a mais alta honraria conferida pelo Exército Brasileiro: a Ordem do Mérito Militar no Grau de Cavaleiro, um prêmio que é outorgado apenas a acadêmicos cujas pesquisas tenham conseguido avançar na área de estudos estratégicos de defesa ou militares.
Por ironia do destino, mais de 30 anos depois do exílio, da clandestinidade e da tortura, esse argentino que renunciou a sua cidadania de origem para tornar-se brasileiro teve seu mérito reconhecido justamente por aqueles que um dia o atacaram.
Comércio da Franca - O senhor já lutou contra os militares. Recentemente, porém, foi homenageado por eles. Como reagiu a tudo isso?
Hector Saint-Pierre - Confesso que, em um primeiro momento, achei um pouco estranho. Mas, como direcionei meus estudos para a defesa e a segurança internacional, temas naturalmente mais ligados ao mundo militar, acabei ficando muito orgulhoso pelo reconhecimento. É claro que muita coisa relacionada à ditadura ainda precisa ser passada a limpo, inclusive para salvaguardar as forças armadas e os bons militares. Tenho convivido bastante com eles e percebo uma nova mentalidade. Precisamos virar a página com inteligência, vencermos a desconfiança mútua que ainda resiste e avançarmos em direção a uma sociedade mais coesa, onde militares e civis dialoguem com mais cumplicidade, priorizando os interesses do país. Mas, a propósito, essa condecoração não é só minha, mas do Gedes, o grupo de estudos que funciona na Unesp de Franca. Ela é, com certeza, o reconhecimento do trabalho silencioso de vários professores da casa, como Suzeley Kalil Mathias, Samuel Alves Soares e Eduardo Mei, além de professores de outros campi da Unesp e de outras universidades paulistas, que também fazem parte do Gedes.
Comércio - Essa condecoração tem relação com suas propostas nas áreas de defesa e segurança internacional. O que há de novo nelas?
Saint-Pierre - Nós ainda estamos presos a um pensamento de defesa e segurança que se enquadra na esfera da política interna, o que pode ser explicado pelas várias intervenções militares que aconteceram em todos os países sul-americanos ao longo de suas histórias. No mundo de hoje, porém, defesa e segurança só fazem sentido se pensadas internacionalmente, levando em consideração a formação de blocos políticos e econômicos, a movimentação e as atitudes de outros países. Nesse sentido, estamos tentando fazer com que todos os países sul-americanos percebam a importância de trabalharem conjuntamente. Isso começou em 1978, com o Acordo de Itaipu, envolvendo Brasil, Argentina e Paraguai. Foi uma espécie de início do desmonte da desconfiança, mas que vem caminhando lentamente. Mas isso não quer dizer que os países terão forças armadas em comum. É uma questão de acordos que permitam o apoio de um país a outro em caso de invasão, de tal forma que um possível inimigo saiba que ao invés de lutar com apenas um país terá que lutar com 12 países, o que pode dissuadi-lo de atacar.
Comércio - O senhor tem falado bastante sobre defesa como política pública e na relação entre defesa e diplomacia. Como isso funciona?
Saint-Pierre - Além de serem pensadas com foco no cenário internacional, a defesa e a segurança precisam ser planejadas a partir do posicionamento estratégico que cada país almeja para si mesmo. Qual o tipo de inserção que se pretende ter no cenário internacional? Uma atuação impositiva ou belicosa? Uma atuação mais pacífica, centrada na diplomacia? É a partir daí que se deve começar a desenvolver as estratégias de defesa e segurança. Nesse sentido, estamos fazendo um esforço para aproximar a sociedade civil dos militares, uma relação que ficou um pouco abalada em função dos períodos autoritários que vivemos. Daí a proposta de transferir a defesa e a segurança para o âmbito das relações internacionais.
Comércio - Então, a esfera de decisão no que diz respeito à defesa e segurança sairia do controle militar?
Saint-Pierre - Essa é uma questão complicada e muito discutida. O problema é que ainda existe muita desconfiança entre civis e militares. A idéia dessa proposta não é tirar o poder de decisão das forças armadas, mas sim dividir esse poder com a sociedade civil, com a diplomacia e com o governo. O motivo é bem simples: defesa e segurança não são sinônimos de forças armadas. Como são treinadas para a guerra, tornam-se os instrumentos de operacionalização da defesa e segurança. Mas esse binômio vai mais além, está ligado à estratégia do país, à saúde pública, pleno emprego e educação, por exemplo, pois só assim você consegue criar no cidadão o orgulho e a vontade de defender o seu país. E é aí que entra a universidade. O que precisamos atualmente é formar quadros civis que entendam essas questões e consigam dialogar com os militares sem revanchismo e desconfiança.
Comércio - Uma dessas estratégias de defesa e segurança poderia estar relacionada a um maior investimento em armas, uma vez que em termos militares somos talvez o mais fraco entre os Brics [grupo político formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul]?
Saint-Pierre - Não, ao contrário. Devemos tomar a nossa fraqueza militar como um trunfo. A América do Sul é uma zona declarada de paz. Somos contra a proliferação de armas atômicas. Então temos muita argumentação diplomática contra qualquer ato belicoso de outro país. Na verdade é um trunfo moral. Mas, além disso, tem outro motivo. Investir em armas nucleares, por exemplo, levaria um tempo enorme e teria um custo altíssimo, em termos financeiros, comerciais e diplomáticos. E quantas ogivas teríamos em 20 anos? Uma? De que iria nos adiantar isso diante do aparato bélico das grandes potências?
Comércio - Mas esse trunfo moral não tem um limite?
Saint-Pierre - Sim, tem. Mas aí entra essa questão da defesa e segurança pensada em termos de estrutura regional, em que todos os países da América do Sul, por exemplo, cooperem entre si. Entra, também, a questão da estratégia de defesa. Se não temos bombas, podemos ter, por exemplo, uma boa escola de formação de guerrilheiros, de tal forma que um inimigo mais poderoso saiba que entrar será uma coisa, mas dominar, ou sair, será completamente outra.
Comércio - Na sua opinião, existe alguma possibilidade de invasão da Amazônia por alguma grande potência em médio ou longo prazo?
Saint-Pierre - Acho que isso é um mito. O eterno mito amazônico, o Eldorado. Se os EUA quiserem invadir o país, vão fazer pelo alto, atacando nossos aeroportos para minar nossa força aérea. E depois, eles iriam entrar em São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro e outras capitais, o que é muito mais fácil que enfrentar mosquitos e outros desafios amazônicos. Até porque, eles já estão por lá há muito tempo, em parceria com empresários brasileiros que estão tranquilamente entregando nossas riquezas.
Comércio - Trazendo essas questões para o âmbito local, o que Franca poderia ganhar com esses estudos? O que o curso de Relações Internacionais pode fazer pela cidade?
Saint-Pierre - Muita coisa! O problema é que a cidade não olha muito para a Unesp. Temos um dos melhores cursos de direito do país e um curso inovador na área de Relações Internacionais e não conseguimos um tostão do município para a realização de qualquer evento. Já conversamos com as duas últimas administrações municipais, do PT e do PSDB. Propusemos a montagem de uma Secretaria de Relações Internacionais. Com essa secretaria, poderíamos buscar dinheiro internacional para vários projetos nas áreas de educação, cultura e saúde, por exemplo. Mas, ninguém mostrou interesse nesse projeto. Não me pergunte o motivo, porque também não entendo.
Comércio - E em relação aos empresários?
Saint-Pierre - Se passa a mesma coisa. Há algum tempo atrás, organizamos um evento internacional. Na época, a Argentina tinha aumentado a taxação dos nossos produtos. Pois bem, eu trouxe o embaixador argentino aqui em Franca e convidei os empresários para debater com ele. A resposta que tive foi sui generes. Um deles me disse que o mercado era livre e que não interessava esse negócio de política. Mas como! Que mercado livre? A Argentina estava elevando as taxas de nossos produtos! E como um empresário não quer discutir política! O mercado é totalmente influenciado pela política! Realmente, não dá para entender por que a cidade não aproveita a universidade que tem. Mas acho que é uma questão de conversar. Talvez os dois lados precisem abaixar um pouco a guardar e arejar um pouco mais a cabeça.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.