por Luiz Fernando Zanin Oricchio
Crítico de cinema e editor do suplemento Cultura, do jornal O Estado de São Paulo
Luz nas Trevas é continuação ou diálogo com O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla? Talvez uma característica não anule a outra. Primeiro, por ser um legado de Sganzerla, na forma do roteiro que não pôde filmar (morreu em 2004). Segundo, porque a intuição que criou o primeiro Bandido, no ano em transe de 1968, não poderia deixar de recriá-lo em outra época, neste nosso paradoxal tempo contemporâneo. Paradoxal porque mais morno, mas não menos repleto de contradições do que aquele que viu nascer o primeiro Bandido.
Daí o diálogo cerrado do filme do presente com o do passado. Há trechos do Bandido da Luz Vermelha citados em Luz nas Trevas, como por exemplo quando o Luz, agora vivido por Ney Matogrosso, vê na TV da prisão a morte do seu personagem de outrora, interpretado por Paulo Villaça. Há outros signos cuidadosamente escolhidos: Djin Sganzerla, filha de Rogério e Helena, vive Jane, personagem da mãe no primeiro filme. Sérgio Mamberti usa o mesmo tom de Pagano Sobrinho para interpretar o corrupto. A voz gutural de Arrigo Barnabé reforça sua versão expressionista do policial.
André Guerra faz o filho do Bandido, que agora segue os passos do pai e se torna assaltante. No mais, vemos a fidelidade à inspiração de Sganzerla expressa na maneira como se filma, se monta e se introduz uma trilha sonora (Das mais inspiradas, aliás. Um dos grandes momentos é a interpretação de Ney, como caubói contemporâneo, de Sangue Latino, um dos seus sucessos). O diálogo com o Godard de Pierre Le Fou é total. Assim como a vocação de assimetria e descontinuidade, que fazem de Luz nas Trevas um desses objetos não identificados no panorama de atual caretice do cinema brasileiro.
É claro que a visão de Sganzerla sobre a marginália teria de ser reinterpretada. Talvez ela hoje tenha sentido diferente daquele de 1968. Então, era época não apenas de expressar o desespero político e existencial do 3.º Mundo, mas de romper com um cinema crítico considerado já pouco efetivo. Era o nascedouro do Tropicalismo, do intercâmbio entre as artes plásticas e o cinema (com Hélio Oiticica, por exemplo, homenageando o bandido Cara de Cavalo), e com o teatro de ruptura de Zé Celso. Todo esse flerte com o comportamento ‘à margem’ fazia sentido num quadro de fechamento político. Daí a inspiração em João Acácio, o Bandido da vida real. E que sentido tudo isso terá hoje?
Será essa, talvez, a discussão mais interessante a ser trabalhada sobre o fundo desse belo filme. Ele expressa uma fidelidade total às ideias libertárias de Sganzerla e Helena Ignez. Uma noção pouco acomodada da rebeldia, daquele sentimento que não se conforma ‘com tudo o que aí está’, mas nem por isso se dá ao trabalho de encontrar saídas.
Escancara impasses, ao invés. E introduz o escracho lá onde a crítica se mostra inócua. Ataca, pelo riso e pela paródia. Ser rebelde é manter-se sempre jovem. Como se sabe, a rebeldia conserva seu valor de face e atravessa gerações sem sentir o peso dos anos. É uma fonte da juventude.
DE ATRIZ A DIRETORA
Helena Ignez
Nascida em Salvador em 1942, numa família de classe média, Helena Ignez destacou-se quando jovem pela beleza e inteligência. Estudante de Direito e vencedora do concurso Glamour Girl de sua cidade, mudou o rumo de sua vida aos 17 anos ao conhecer Glauber Rocha. Fizeram juntos o primeiro filme de ambos, o curta O pátio, em 1959. Casaram-se, tiveram uma filha, Paloma, separaram-se.
Dois anos depois Helena estava no Rio de Janeiro, onde protagonizou filmes de sucesso: A grande feira (1961), Assalto ao trem pagador (1962), O padre e a moça (1966). No ano seguinte transferiu-se para São Paulo onde começavam as filmagens de O bandido da luz vermelha, de Rogério Sganzerla. Com ele se casou e passaram a formar um casal importante no cenário do cinema brasileiro. Tiveram duas filhas, a compositora Sinai e a atriz Djin; fizeram juntos muito filmes, um deles, A mulher de todos, sempre citado como referência de vanguarda. Com a morte do marido, vítima de tumor cerebral, há oito anos, Helena Ignez resolveu assumir o trabalho que Sganzerla deixara inacabado: Luz nas Trevas, a Volta do Bandido da Luz Vermelha. Era a continuação do que o diretor havia escrito para O Bandido da Luz Vermelha, o clássico de 1968. Não foi fácil para ela, segundo se depreende de entrevistas recentes. Mas às vésperas de completar 70 anos, conseguiu terminar a obra, cuja direção dividiu com Ícaro Martins. No elenco, André
Guerreiro Lopes, como o filho do bandido, e Dijn Sganzerla, a filha do casal famoso, no papel que foi da mãe. Mas é Ney Matogrosso quem, dizem, está dando um show na pele do bandido.
Serviço
Título: Luz Nas Trevas- A Volta do Bandido da Luz Vermelha
Direção: Helena Ignez e Ícaro Martins.
Gênero: Drama (2012)
Duração: 83 min
Classificação: 14 anos
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