Mobilidade urbana


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Dizem os estudiosos que ‘as cidades constituem-se no palco das contradições econômicas, sociais e políticas e o sistema viário é um espaço em permanente disputa entre diferentes atores, que se apresentam como pedestres, ciclistas, condutores e usuários de automóveis, caminhões, ônibus e motos.’ Essa afirmação torna-se, cada vez mais, verdadeira, quando vemos ações governamentais implementadas na intenção de corrigir distorções da nossa economia de mercado e outras, marcando sua preocupação com as questões da mobilidade urbana.

Não é de hoje que cientistas, autoridades públicas e setores consideráveis da sociedade alertam para o caos que se instala em nossas vias públicas como decorrência do brutal modelo de transporte individual implantado em nossa cultura e em nosso dia-a-dia. O Brasil, desde a política industrial de Juscelino Kubitschek, vem priorizando duas modalidades que causam profundas dores de cabeças para a sociedade atual e, certamente, ainda causarão problemas muito mais graves no futuro. A primeira, diz respeito ao modal rodoviário (caminhões) para o transporte das nossas cargas. Com isso, temos a imensa poluição gerada pela queima do combustível dos caminhões, temos o volume enorme de veículos nas nossas já precárias rodovias, temos o alto custo da manutenção dessas rodovias exatamente pelo estrago que eles provocam e, finalmente, o aumento do custo final dos produtos que circulam pelo País em função do preço dos fretes. Enfim, em um país de dimensão continental o que menos deveríamos ter é um modelo de transporte de cargas movido por caminhões.

A segunda modalidade priorizada e mantida até hoje, é a do transporte individual, automotivo e urbano, em detrimento de qualquer transporte coletivo público.

Sei que esse tema é difícil de ser tratado, e principalmente de convencer a população sobre a sua relevância, porque sempre que o consideramos temos em mente o modelo e a qualidade do transporte oferecido atualmente na maioria das cidades brasileiras. Mas, o fato é que está se vislumbrando no horizonte da sociedade uma mobilidade urbana caótica e altamente limitada. Em nome do direito de se ter um automóvel, constroi-se a possibilidade de perda de qualidade de vida com mais poluição, mais tempo despendido no trânsito (longas filas e engarrafamentos) e, consequentemente, estresse e violência.

Como se o que há não bastasse, o governo federal reduz o IPI dos automóveis, para blindar o setor e a economia dos efeitos da crise mundial, mas sem exigir (mais uma vez) nenhuma contrapartida vinculada ao consumo de combustível, ou seja, estamos na contramão do que acontece no mundo atualmente.

A mídia tem relatado os avanços que estão ocorrendo em diversos países no sentido de criar, difundir e incentivar combustíveis alternativos que poupem o meio ambiente. Além disso, os principais governos mundiais discutem alternativas sustentáveis para o transporte público, garantindo eficiência, modernidade, qualidade e custos razoáveis. No Brasil, infelizmente, garante-se o interesse das montadoras e da cultura individualista, mas pouco, efetivamente, tem sido feito pelo meio ambiente e pela coletividade.

Cassiano Pimentel
Professor Universitário e Agente de Exportação.

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