Comissão da verdade


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Passamos boa parte do século XX sob o domínio de regimes autoritários, que obviamente foram respaldados pelas forças armadas. Como é comum nesse tipo de regime, os direitos políticos e constitucionais desaparecem e dão lugar aos interesses maiores daqueles que detém o poder. Em função disso, aos poucos fomos experimentando uma espécie de rompimento silencioso entre parte da sociedade civil e os militares, sobretudo após dezembro de 1968, quando entrou em vigor o Ato Institucional n´ 5, que permitiu aos militares o endurecimento de suas ações contra aqueles que os contestavam.

Redemocratizado o país, não conseguimos superar todos os traumas. Em função das torturas, dos desaparecimentos e de todas as mortes suspeitas ocorridas durante o regime ditatorial, boa parte da sociedade civil continuou cobrando respostas dos militares. Respostas que só vieram em parte e que ainda não conseguiram contentar a todos esses segmentos.

Nesse sentido, a Comissão da Verdade, recém-instaurada pela presidente Dilma Rousseff, na presença de quatro ex-presidentes, do chefe do Estado Maior das Forças Armadas e dos comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica, torna-se emblemática e bastante significativa. Sua missão vai além da averiguar as circunstâncias de muitas mortes e a localização de vários desaparecidos. Sua missão é passar a limpo o que aconteceu nesse período para que todos, militares e sociedade civil, consigam finalmente virar essa página triste de nossa história e continuar a escrevê-la de maneira mais coesa e tranquila, sem desconfiança e com o objetivo único de desenvolver e melhorar o país.

Por isso, é importante que ela consiga desenvolver seu trabalho sem revanchismos, como frisou a presidente em seu emocionado discurso. É certo que as famílias que hoje não podem chorar seus mortos têm todo o direito de saber o que aconteceu e qual é o paradeiro de seus entes queridos. E esse direito, que hoje já é quase consensual na sociedade civil, deve também estar presente dentro de muitos quadros das próprias Forças Armadas, hoje já permeada por uma nova mentalidade e formada por uma geração que também precisa conhecer todos os lados da história.

É importante, também, que Exército, Marinha e Aeronáutica contribuam para o desenvolvimento desses trabalhos, até mesmo para expurgar esses fantasmas e fortalecer ainda mais essas instituições perante a opinião pública, pois é sabido que nem todos os militares foram torturadores e nem todos concordaram com esses métodos torpes empregados por alguns.

Que seja bem-vinda essa Comissão. Que traga à tona a verdade e de volta os desaparecidos. Que puna quem tiver que ser punido e consiga, finalmente, virar essa página da história, sem mais resquícios ou revanchismos. E que o país continue seguindo em frente.

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