Você tem um amigo? Se puder responder que sim, saiba que você tem um tesouro. Nada se compara ao amigo fiel, nem mesmo a prata ou ouro. O verdadeiro amigo se adquire na provação e não nos momentos de alegria e de bonança.
No ano de 2000, dentro da Renovação Carismática, movimento da Igreja Católica, em um serviço de evangelização conhecido como Seminário de Vida no Espírito Santo, conheci e fiz amigos. Um deles, especial, Emerson, era responsável pela equipe de cozinha de todos os retiros. Um homem de Deus que não se deixava abater pelas dificuldades. Um homem de fé. E como todo homem de fé, ele também vem tendo a sua fé testada. Foi acometido de câncer no cérebro. Várias cirurgias já foram realizadas. Retira-se o tumor e, dentro de pouco tempo, insiste em reaparecer. Emerson, que é um homem cheio de dinamismo, hoje depende da esposa Eliana e dos filhos para se locomover. Nesse final de semana pude experimentar o valor da amizade e o tesouro que ela é e representa. Juntamente com outros amigos, fomos visitá-los e rezar com eles.
Olhando para Emerson, na minha humanidade, no meu silêncio, perguntei a Deus por quê? A resposta veio do próprio Emerson. A pergunta não deve ser feita com ‘por que’, mas, para quê? Naquele momento em que olhava para ele e rezávamos todos juntos, fui me lembrando do amor de Deus, de que esse momento de dor fez com que a família dele se unisse ainda mais, que ele pode sentir-se amado e, principalmente, o quanto ele tem sido um testemunho de fé já que de sua boca nunca ouvi murmuração. O Emerson acolheu no trabalho da igreja várias pessoas que poucos aceitam, pois estamos acostumados a querer ao nosso lado os ‘melhores’.
Ali, naquele momento, quem o estava amparando, além da esposa, eram os seus amigos, pessoas que vêm sendo lapidadas pelo amor, pela dor, pela fé, pela certeza de que tudo é possível àquele que crê e que o bom combate vem sendo combatido.
Com a dor de sua enfermidade Emerson consegue transmitir paz e esperança que riqueza alguma do mundo é capaz de proporcionar, mesmo sabendo que se prepara para realizar mais uma cirurgia. Partilho esse fato com os leitores do Comércio como forma de reflexão sobre o valor da amizade, o valor do amor e da fé.
Tenho vistos idosos e crianças abandonadas, sofrendo por falta de um familiar que possa lhes amparar nos momentos de sofrimentos. O sentimento de abandono e de rejeição causa danos irreparáveis ao psiquismo humano. Relegar o cuidado dos enfermos, dos idosos, das crianças ou dos excluídos ao Poder Público é fechar os olhos para a realidade atual, é negar própria história, é o reconhecimento da incapacidade de enfrentar as dificuldades que a vida nos oferece. É fechar as portas para a alegria e recompensa espiritual, pois todo aquele que ama e cuida dos excluídos, certamente será recompensado.
Descobri que tenho um tesouro cujo valor é inestimável e que a traça ou o homem não pode dilapidar ou subtrair. Esse tesouro se chama amigo, cujo valor não se mede com índices econômicos, mas com qualidade e quantidade de amor, respeito, companheirismo. Eu tenho um tesouro. E você?
Acir de Matos Gomes
Advogado, professor universitário
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