Mãos dadas mas longe


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Andar descontraído por ruas e avenidas, sem compromisso algum com o relógio, parece ser uma atividade fora de moda. Todos têm muita pressa nos dias de hoje. Parecemos seguir um objetivo inadiável. Qual seria a razão? Por certo, cada um sabe do seu motivo.

Entretanto, a correria nem sempre tem tanta justificativa assim. Em meio ao vaivém constante, de repente, alguém saca o celular. Sem parar, apenas diminui o passo, digita um número e começa um blábláblá interminável. Parece fora de propósito. Se a pessoa estivesse atrasada para algum compromisso, com horário pré-determinado, o ato de usar o celular demonstra falta de senso. A ligação gera mais perda de tempo ainda.

Por outro lado, usar o telefone móvel, enquanto se espera por algo, já se tornou uma mania nacional. De início, o usuário pega o aparelho e digita aleatoriamente as teclas, procurando por um entretenimento qualquer. Quando se cansa do passatempo, a pessoa passa então a digitar um número.

Completada a ligação telefônica, vem a manjada pergunta inicial: ‘Onde você está?’ Daí para frente, um profícuo diálogo ganha corpo. Mesmo que não queira, quem estiver por perto fica a par da indesejada conversa.

Esse tipo de bate-papo particular pelo telefone acontece em todo lugar público. Ponto de ônibus, fila de banco ou supermercado, sala de espera de médico ou dentista, tudo serve de palco para as demonstrações orais à distância.

Imitando o uso do celular no ato de esperar, muita gente agora passou a falar também em movimento. Não importa o tipo de locomoção, o aparelho vai para o ouvido. Se a pé alguém já pode tropeçar por andar falando, imagine então o que pode acontecer ao motorista que tagarela enquanto dirige?

Junto a essas práticas costumeiras de uso do celular, novas estratégias vêm surgindo. Tem gente que não se desgruda do telefone móvel para nada. Usa o aparelho até para fazer caminhada. Outros, o usam em atividades totalmente incompatíveis. A dependência fala mais alto.

Os absurdos da comunicação instantânea (sem necessidade) surgem a todo o momento. Comumente, ciclistas pedalam, fumam e falam através do telefone, ao mesmo tempo, por longas distâncias. Muitas vezes, na contramão. Motociclistas não ficam atrás. O número deles rua afora perde para o perigo do globo da morte circense. Quase ninguém entende como alguém consegue acelerar a moto com a mão direita, segurar o cigarro e o celular, com a esquerda, para fumar e falar. Ainda por cima, usando capacete fechado.

Os absurdos quanto ao uso do celular não param de crescer. Em ato difícil de acontecer atualmente, um casal de namorados caminhava de mãos dadas. Junto à proximidade física, havia um fosso entre ambos. Psicologicamente, cada um estava muito longe do outro. A moça falava ao celular. O rapaz, por sua vez, explanava abobrinhas, entretido numa distante interlocução.

Antônio Araújo
Articulista e professor - tonin.palavras@uol.com.br

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