A Igreja celebra hoje a Solenidade da Ascensão de Jesus. Subiu aos céus!
Esta festa foi instituída durante o século IV e comemora o acontecimento descrito pelos Atos dos Apóstolos. Dá-se no monte das Oliveiras 40 dias depois da ressurreição. Jesus aparece ali aos discípulos pela última vez e confia-lhes sua grande missão: deverão ser suas testemunhas, pregando a boa nova de Deus por todo o mundo. O Espírito Santo lhes outorgará forças para cumprirem seu cometimento. Terminou de lhes dizer essas coisas, deu suas últimas instruções e elevou-se ao céu. Apareceram então dois anjos, e prometeram aos discípulos que Jesus voltaria um dia da mesma forma que o viram ir-se. Vejamos, portanto, os ensinamentos da Palavra de Deus proclamada nas missas deste domingo.
PRIMEIRA LEITURA - ATOS, 1
Atos dos Apóstolos é o segundo livro de Lucas. Nele, o evangelista pretende mostrar que ensinamentos e ações de Jesus continuam nos ensinamentos e ações dos cristãos. Não é, então, manual de história da Igreja, mas sim o prolongamento da prática do Senhor na vida da comunidade cristã. Se no Evangelho de Lucas temos a práxis de Jesus desde o começo até o dia em que foi levado para o céu, em Atos está a práxis apostólica cristã.
A tarefa está ancorada na experiência do Cristo ressuscitado: “Foi a eles que Jesus se mostrou vivo depois da sua paixão, com numerosas provas”; tem o aval do Pai, cuja promessa se realiza em Jesus e na comunidade por meio da efusão do Espírito que levará a comunidade à identificação de sua práxis com a de Jesus. A prática cristã nasce de experiência que Lucas visualiza num contexto de intimidade e comunhão: a refeição. É dessa intimidade com ele que nasce o testemunho cristão, a missão, a evangelização pondo em movimento a Boa Notícia trazida por Jesus. A garantia de sucesso está no batismo com o Espírito Santo. É a memória renovada e atualizada do que Jesus disse e fez.
A pergunta dos discípulos revela a ânsia da comunidade cristã, a fim de que o projeto de Deus se realize completamente. Estão curiosos em saber se existe um limite até o qual se possa resistir e lutar corajosamente, e depois “descansar”, sem que haja mais nada por fazer. A resposta de Jesus contém duas indicações. A primeira afirma que o projeto de Deus não depende de uma data histórica. A segunda é consequência da primeira e manifesta qual deve ser a autêntica preocupação da comunidade cristã: sob a ação da força do Espírito, testemunhar a práxis de Jesus. O projeto de Deus não depende de teorias, mas do testemunho que atualize o que Jesus fez e disse. Torna-se necessário descruzar os braços, deixar de olhar passivamente para o céu, encarar a realidade que nos cerca, perceber que somos todos “homens da Galiléia”, comprometidos com o testemunho de Jesus.
SEGUNDA LEITURA - EFÉSIOS 1
Paulo pede a Deus, sabedoria para os cristãos. Não se trata de sabedoria humana, mas de inteligência para compreender o mistério da Igreja. Pede a Deus para iluminar os olhos do seu coração para que compreendam quão grande é a esperança para a qual foram chamados. A primeira leitura convidava os cristãos a não descuidar das obrigações concretas deste mundo. Esta segunda, completa o pensamento e exorta os cristãos a não esquecerem que a vida não está limitada aos horizontes deste mundo.
EVANGELHO: MARCOS 16.
O texto inicia com ordem de Jesus: “Vão pelo mundo inteiro e anunciem o Evangelho a toda criatura!” Começa, definitivamente, o tempo da comunidade cristã. No Evangelho de Marcos, Jesus se apresenta anunciando o Evangelho. Os discípulos irão, portanto, dar sequência ao que Jesus fez, ampliando o campo de ação. Jesus anuncia o Evangelho na Galiléia; os discípulos deverão fazê-lo pelo mundo inteiro e a toda criatura. O evangelho de hoje conclui afirmando que os discípulos saíram, segundo a ordem do Senhor, e anunciaram por toda parte. Portanto, a grande tarefa da comunidade cristã é anunciar o que o Mestre anunciou: a boa notícia do mundo novo, inaugurado com Jesus.
O anúncio provoca decisão: crer ou não crer. A pregação de Jesus leva as pessoas à resposta na fé; o anúncio dos discípulos tem como resultado provocar a fé que conduz à salvação: “Quem crer e for batizado será salvo. Quem não crer será condenado”. Os versículos 17-18 falam de sinais que acompanharão os que acreditarem (isto é, todos os que forem aderindo a Jesus na fé). Os dois primeiros sinais (expulsar demônios em nome de Jesus e falar novas línguas, mostram que também a ação dos discípulos é libertadora e comunicadora do mundo novo).
O terceiro e quarto sinais (pegar serpentes ou beber veneno mortal), falam dos confrontos e conflitos suscitados pela fé. Quem anuncia o projeto de Deus sofre oposições imprevistas e veladas ou evidentes e abertas. O quinto sinal (impor as mãos sobre os doentes, curando-os), à semelhança do primeiro e do segundo sinais, põe os discípulos em comunhão com a prática de Jesus, que optou pelos sofredores e os curou. O versículo 19 marca o fim do caminho de Jesus: “Depois de falar aos discípulos, o Senhor Jesus foi levado ao céu, e sentou-se à direita de Deus”. Agora seu caminho e história continuam nas ações da comunidade.
Não devemos passar por alto o aspecto missionário desta festa. Antes da ascensão, Jesus confiou a seus discípulos uma grande missão: prolongar entre todas as nações da terra sua obra salvadora para a humanidade inteira. Deviam ser testemunhas “em toda a Judéia, na Samaria e até os confins da terra”. Deviam ir e fazer discípulos de todos os povos, e deviam recordar que “o perdão dos pecados seria pregado a todos os povos”. Porém, junto com a missão vai a promessa solene: “Eu estarei convosco sempre, até o fim do mundo”. Essa promessa fortaleceu a Igreja através dos séculos. No meio das perseguições, o povo de Deus lembrou-a sempre e nos sofrimentos experimentou a presença e o poder do Senhor ressuscitado e ascenso ao céu.
José Geraldo Segantin
Pároco da Catedral de Franca - segantin@comerciodafranca.com.br
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