Quem vê cara não vê coração. Julgamos pela aparência tantas vezes e, ainda bem, tantas vezes nos enganamos. Ainda existe a surpresa, guardamos dentro de nós o elemento surpresa, ainda que para pior, ainda que para o sofrimento, melhor assim. Deus me livre do mundo que o Facebook testemunha todos os dias. É fato que boa observação nos faz como a boa cigana, que tudo lê nas pessoas, exceto as linhas da mão.
Por isso, quando vi Danielle Dahoui (chef de cozinha) pela primeira vez ao lado do ex-jogador e bonitão unânime Raí, bonita e bem cuidada, sendo responsável por um elegante coquetel no estádio do Morumbi, pensei tudo aquilo que gostamos de pensar daqueles outros que parecem ter sido mais beneficiados pela vida.
Fiquei sabendo do restaurante dela, o Ruella, há alguns anos. O conheci numa noite chuvosa e quente. O trânsito em São Paulo estava leve e me recordo também de haver música desde o início.
O restaurante é uma graça, cheio de detalhes e objetos garimpados aqui e ali, uma aura meio budista ajuda a descontrair o afrancesado dos pratos. Parecia até um pouco deslocada a mistura, parecia que havia uma certa falta de identidade, mas hoje, depois de conhecer a história da chef, as coisas se encaixaram melhor. A chef é uma especialista em colagens...
Pois bem, Danielle nasceu no Recife, foi criada pela avó materna porque a mãe, uma jornalista, preferiu outros caminhos. O pai, ela só conheceu aos 17 anos. Na adolescência, já apareciam os primeiros talentos, fazia festinhas para os amigos, que lhe pagavam. E com esse espírito arrendou uma barraca na Bahia para juntar US$ 500 e ir-se embora para a França, mais especificamente, Lilly. Segundo ela, os primeiros 40 dias foram uma tragédia: fome. Precisou arrumar umas faxinas para sobreviver. Até que numa dessas faxinas, numa escola, foi promovida a descascadora de legumes e daí apareceu uma fagulha de seu talento, que foi percebido pelo dono do lugar, que lhe conseguiu um estágio em Paris. Pronto, tudo fez sentido na sua vida e ela não refugou nenhum estágio na capital francesa, de Mc Donald’s a bistrôs, sempre havia algo a ser apreendido. Mas, como nem o ensino médio ela havia concluído, jamais conseguiu chegar aos grandes restaurantes.
De volta a São Paulo, Danielle já tinha 30 anos e sabia que a sua sobrevivência viria da cozinha. Encontrou um emprego no extinto restaurante Flamingo, que só abria à noite, por isso o arrendou para o almoço e teve o seu primeiro grande sucesso, chegando a ser notícia de jornal.
Enfim poderia sonhar um pouco mais. Encontrou um investidor e uma casa arruinada no fundo de uma ruazinha que fazia promessas que só ela escutou, daí Ruella. Encarou o desafio de reformar a casa e decorá-la com o gosto e peças que trouxe do Recife, Bahia, Lilly, Paris, São Paulo etc. Inaugurou o restaurante que foi e é um sucesso enorme. Abriu outros dois restaurantes em São Paulo e um no Rio de Janeiro, arrumou uma sócia para que não precisasse administrar nada além de panelas e frigideiras. Foi mais ou menos nesse contexto que a conheci, casada então com Raí, mãe, chef midiática de sucesso.
Mas a vida não se cansa de lhe dar tesouras a fim de que o patchwork não termine nunca e fique cada vez mais colorido. Separou-se do Raí, na verdade seu terceiro marido, e quando, por acaso, teve de ir ao escritório do restaurante, descobriu que devia, do papel higiênico ao vinho, algo em torno de R$ 1,6 milhão. Um novo recomeço se fez necessário, renegociou as dívidas, só terminarão em 2.020! O cabelo ficou branco, uma úlcera não lhe deixa esquecer.
Danielle diz que quando fica triste recorre a um doce que sua avó fazia: uma torta mousse de chocolate - o doce a transporta ao colo da avó. Não sei de quantas dessas mousses ela se serviu. O que sei é que hoje a mistura de seu restaurante e da sua comida são frutos de uma história de vida, de uma verdadeira vida. Da próxima vez tentarei descobrir os caminhos que cada prato percorreu antes de chegar à mesa do Ruella.
Dica da semana
O molho mundialmente conhecido como pesto tem como berço uma das mais belas regiões do mundo: o lado oeste do Piemonte na Itália. A região é abrigada do frio intenso e recebe uma delicada brisa do Mediterrâneo. Nada mal...
Ao que parece a receita original era: manjericão, alho, azeite, parmesão, pignoli, manteiga. Ele é integralmente cru e até pode ser usado numa sopa de legumes, mas seu papel é ser irresistível numa massa.
O manjericão deve ser fresco, jamais aquecido ou gelado. E o pignoli pode ser trocado por nozes.
Uma boa receita para se fazer também no processador é a seguinte: 2 xícaras bem cheias de folhas de manjericão; 1/2 xícara de azeite de oliva extra virgem; 3 colheres de sopa de pignoli; 2 dentes de alho bem picadinhos e sal.
Para ser misturado a mão: 1/2 xícara de queijo parmesão ou romano; 3 colheres de manteiga amolecidas em temperatura ambiente.
Para o bom pesto, temos dois segredinhos: antes de colocá-lo sobre a massa, dilua-o em duas colheres de sopa da água quente que cozinhou a massa. Outro: processe separadamente o pignoli, o alho e o manjericão. A erva deve ser processada o mínimo possível com azeite, ao passo que o alho deve ser muito bem processado e o pignoli (ou as nozes) pede tempo médio de processamento. Pronto! É só escolher a massa.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.