Sargento dos Bombeiros afirma que é ‘um instrumento de Deus’


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MISSÃO - Há 25 anos, o sargento Luis César Ricordi se dedica a salvar vidas e acalmar o sofrimento do próximo
MISSÃO - Há 25 anos, o sargento Luis César Ricordi se dedica a salvar vidas e acalmar o sofrimento do próximo

Quando criança, ele sonhava em ser caminhoneiro e atravessar o País viajando. A vida quis diferente. Aos 22 anos, Luis César Ricordi ingressou na Polícia Militar do Estado de São Paulo para se tornar bombeiro. Hoje é comandante de prontidão de uma das três equipes que se revezam no posto do Corpo de Bombeiros de Franca.

Nascido na vizinha cidade de Batatais, o sargento Ricordi, como é conhecido, cresceu vendo o esforço do pai motorista de ônibus para sustentar a mulher e os cinco filhos. “Ele trabalhou com um monte de coisas. Fazia de tudo para conseguir trazer dinheiro para casa”, lembra.

Com o sonho de melhorar de vida, a família do sargento se mudou para Franca. Logo, sua irmã mais velha conheceu um bombeiro e se apaixonou. “Foi ele quem despertou em mim a vontade de entrar para a Polícia Militar. Sempre que podia visitava o quartel e via como era bom para aqueles homens poder ajudar os outros e pensei: ‘é isso o que quero para mim’.”

A aprovação no concurso foi a realização de um sonho. “Comecei na PM trabalhando em São Paulo. Só vim para Franca três anos depois. E desde então trabalho ajudando a salvar vidas.”

Com cursos de salvamento terrestre, salvamento em altura, busca e resgate em mata fechada, mergulho e resgate, o sargento Ricordi é um dos homens mais experientes da corporação francana hoje e comandou centenas de operações de resgate. “Nem faço mais conta. São muitos os casos em que estive presente.”

Recentemente, alguns casos ficaram marcados na memória do sargento, como o resgate dos corpos de Pedro Augusto Resende Maia, de 14 anos, que morreu em 2007 depois de ser carregado por uma enxurrada, e do estudante Kaique Silva Santos, de 13 anos, que faleceu em dezembro de 2011 também depois de ser arrastado pela enxurrada. O caso mais recente que o marcou foi o resgate da jovem Mayellen Eduarda Silveira, 21, que perdeu a vida após cair com seu carro no Córrego dos Bagres, em janeiro deste ano. O corpo dela só foi achado três dias após o acidente e as cenas do resgate foram parar nas redes sociais.

Comércio da Franca - O senhor ficou conhecido em Franca por chefiar diversos trabalhos de busca a pessoas que desapareceram em córregos e rios. Como funciona esse trabalho?
Sargento Luis César Ricordi - No Corpo de Bombeiros, nós somos divididos em três equipes: a verde, a azul e a amarela. Cada equipe tem um comandante de prontidão e seus subordinados. Ao todo, são em média 15 pessoas trabalhando por equipe, que se revezam durante todo o dia. Eu chefio a equipe azul. Quando estamos de plantão e algo acontece, sou eu que defino nossa estratégia de trabalho. Tudo vai depender do tipo de ocorrência. Normalmente, o chamado chega pelo 193 (telefone de emergência dos bombeiros). O atendente então me explica o que está acontecendo e, com base nas informações passadas por ele, decido quem devo convocar e que equipamentos levar. Essa decisão tem que ser tomada em, no máximo, um minuto. Nos casos que envolvem resgate de vítimas em águas, normalmente, acaba indo a equipe inteira.

Comércio - E como é chegar a um local de acidente e ver que a vida de alguém depende do trabalho dessa equipe?
Sargento Ricordi - É angustiante, mas somos treinados para lidar com essas situações, para sermos frios o suficiente e poder raciocinar da melhor maneira possível. Nossa primeira reação é tentar salvar e manter a vida da vítima. Esse é o nosso maior esforço. Muitas vezes, passamos dias tentando encontrar a pessoa. Trabalhamos dia e noite sem parar. Quando isso acontece, todas as equipes acabam envolvidas.

Comércio - Mas muitas vezes vocês sabem que as chances de encontrar a pessoa viva são pequenas...
Sargento Ricordi - Sabemos, mas não desistimos. Para nós, sempre há a esperança de que a pessoa possa estar viva e precisando da nossa ajuda.

Comércio - O senhor disse que há casos em que os trabalhos de busca se estendem por dias. Quando vocês sabem que é hora de parar de procurar? Há limite de tempo para este trabalho? E como é a decisão de desistir?
Sargento Ricordi - Não há uma regra para isso. Tudo depende do caso. Normalmente, são de quatro a sete dias de buscas. Mas já teve ocorrências em que passamos deste limite. A decisão não é fácil, principalmente porque pensamos na família. Mas o que nos tranquiliza é que sempre, sempre fazemos tudo o que é possível. Só entregamos os pontos depois de ter certeza de que procuramos em todos os lugares, de que demos o melhor de nós. Então, por conta disso, temos a consciência tranquila.

Comércio - Muitas vezes, depois de dias e noites de trabalho, vocês finalmente encontram a pessoa, mas ela já está morta. Como é esse momento do encontro e a sensação de que o esforço foi em vão?
Sargento Ricordi - Não existe isso de esforço em vão. Não aceitamos isso. Mesmo quando encontramos a pessoa morta, cumprimos nossa missão. Claro que ficamos chateados porque o ideal, a esperança era de que tivéssemos achado a vítima ainda com vida. Mas, muitas vezes, sabemos que isso não é possível, mas não pensamos em esforços em vão porque podemos dar uma resposta para os familiares que passam com a gente todas as dificuldades, que acompanham nosso trabalho à beira dos córregos e dos rios, que nos dão apoio, dão força. Sabemos que agora a família vai poder dar um enterro digno para aquela pessoa, vemos nos olhos da mãe que a angústia de não saber o que aconteceu com seu filho acabou. É triste este momento, mas sabemos que cumprimos nosso papel.

Comércio - O senhor comandou o resgate do garoto Pedro Augusto, que morreu aos 14 anos depois de ser arrastado por uma enxurrada em 2007. Ele era amigo de um dos seus filhos. Como foi atuar em um caso em que a vítima era conhecida?
Sargento Ricordi - Não foi o primeiro caso. Mas este me marcou muito. Eu me lembro que prometi ao pai do Pedro que encontraria o filho dele. O Pedro era um menino muito educado, frequentava a minha casa, meu filho andava de bicicleta pelo bairro com ele. No dia em que o acidente aconteceu, o Pedro estava de bicicleta e, mesmo sendo um garoto forte, acabou levado pelas águas. Foram dias de busca até que encontrei o corpo dele. Me lembro que na hora pensei que estava cumprindo minha promessa. Depois, enquanto outros companheiros faziam o trabalho de retirada do corpo, sentei em uma pedra e fiquei observando a cena. Aí, veio a emoção. Passou um filme na minha cabeça. Me lembrei do garoto risonho que ia em casa. Não aguentei e chorei (nesse momento, os olhos do sargento ficaram cheios de lágrimas).

Comércio - Em dezembro do ano passado, de novo um garoto perdeu a vida ao ser arrastado pela enxurrada e o senhor novamente foi acionado...
Sargento Ricordi - É verdade. Eu na hora pensei que estivesse vendo um filme repetido. As circunstâncias eram muito parecidas. O Kaike também tinha quase 15 anos, também estava de bicicleta e também tentava atravessar a via de escoamento da rodovia Cândido Portinari. A diferença é que no caso do Kaike a força das águas era menor. Conseguimos resgatar ele ainda com vida, fizemos todos os procedimentos para a ressuscitação, mas, infelizmente, ele acabou falecendo no hospital.

Comércio - Outro caso em que o senhor trabalhou e que emocionou muitas pessoas foi o da Mayellen Eduarda Silveira, que perdeu a vida depois de cair com seu carro no córrego dos Bagres, em janeiro deste ano, e ficou desaparecida por quase três dias.
Sargento Ricordi - Neste caso, eu recebi o chamado na madrugada da quinta para sexta-feira. No começo, a gente achou estranho, mas havia testemunhas dizendo que tinham visto o carro cair no córrego e ser levado pela água. Então, fomos com a equipe completa para o local. Chovia muito. A gente chegou e o carro não estava no ponto onde disseram que ele havia caído. Fomos encontrá-lo 2,5 quilômetros para a frente, quase no Galo Branco. Eu desci amarrado a uma corda para tentar o acesso ao veículo que estava com as rodas para cima. Mas, como a correnteza era muito forte, logo o carro foi arrastado novamente. Eu quase fui junto. Parou uns dez metros para frente. Então de novo descemos e vimos que no interior do carro não havia ninguém. Ali começavam as nossas buscas. Ficamos lá até as 6 horas, quando a outra equipe entrou. Por três dias, todo mundo se revezou tentando encontrar o corpo da jovem e nada. Reviramos cada canto do córrego até perto de Restinga. Eu só voltei a trabalhar no domingo pela manhã e, mesmo com a recomendação de que deveria procurá-la em Restinga, resolvi remexer em uma área de poço aqui próximo ao antigo Carrefour e foi lá que encontramos o corpo. Lembro que me assustei porque de repente já estávamos cercados de curiosos, da imprensa, uma movimentação absurda. Depois, fui saber que alguém tinha filmado o encontro do cadáver e postado o vídeo nas redes sociais.

Comércio - O senhor é um especialista, mas a intuição também conta nessas horas?
Sargento Ricordi - Não acredito muito em intuição. Acredito mais na força divina. Sou um homem de fé e, para mim, no meu trabalho, sou um instrumento de Deus. É Ele quem me orienta e conduz meus atos. Temos nossa missão que é salvar e manter a vida das vítimas e acalmar o sofrimento do próximo. Foi por isso que escolhi essa profissão e é isso que me faz acordar todos os dias feliz para vir ao trabalho. São 25 anos de dedicação.
 

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