Elas fazem parte de uma categoria que é muito “homenageada” nos campos de futebol. Maria de Lourdes Costa Bráulio e Marli Paulina Teixeira são mães de árbitros da AFA (Associação Francana de Arbitragem) e há algum tempo vêm sofrendo horrores nos campos da várzea francana. Sofrem no Miramontes, se esgoelam na Vila Tião, xingam no Leporace, mas defendem seus filhos em qualquer campo de futebol onde eles estiverem apitando. O sofrimento delas não se dá apenas pelo xingamento clássico que recebe toda mãe de árbitro, mas sim pelo medo de seus filhos serem agredidos em campo.
Maria de Lourdes, de 64 anos, já perdeu as contas de quantas vezes foi xingada por causa do filho, Renato Bráulio, que apita jogos dos campeonatos amador e varzeano, na cidade e na região, há 25 anos. Mas os xingamentos não a intimidam nem ofendem.
“Xingar [meu filho] tudo bem, eu não ligo. Pode xingar de f.d.p. ou de negão. Pode ser até os dois juntos, mas não pode brigar.”
“Se tiver briga, ela não aguenta”, afirma Renato, que, além de árbitro, é também presidente da AFA e o atual responsável pela organização da arbitragem do Varzeano.
“Não aguento mesmo. Eu entro no campo e quero ver quem toca em meu filho.”
Renato se lembra de um jogo há alguns anos no campo do City Petrópolis entre Miramontes e Só Raça. Um rapaz invadiu o campo e tirou uma bola que ia entrando no gol do Miramontes. Renato não pôde validar o gol, uma vez que a bola não havia entrado. No final do jogo, a vitória do Miramontes incendiou o time e os torcedores do rival.
“Não bastou bater no cara que tinha invadido. O pessoal veio também pra cima de mim”, disse o árbitro.
Maria de Lourdes, então, não se conteve. Pegou um pedaço de corrente e entrou no campo. Foi abrindo caminho e se posicionou um pouco à frente do filho. Mostrou a corrente e foi logo gritando: “Aquele que for homem pode vir. Vamos ver quem é que vai honrar as calças que veste”.
Rapidinho, os torcedores começaram com o “deixa disso”. “Eles me diziam: ‘calma d. Maria, calma, a gente só quer conversar com ele’.”
PULANDO O MURO
Para Marli, 54 anos, mãe do árbitro e operador de caldeiras Carlos Alberto Teixeira, o Beto, entrar em campo para defender o filho também é uma ação bastante corriqueira. Fã de futebol desde que era muito jovem, ela se lembra de ter até mesmo pulado o muro do estádio Lanchão para assistir a um jogo da sua querida Francana. Hoje, sempre que pode, acompanha o filho, que há 13 anos apita jogos amadores e varzeanos.
“Acompanho o Beto desde os tempos em que ele jogava. E desde aquela época invado o campo, se for necessário, para defendê-lo”, lembra Marli.
Carinhosamente conhecida por tia Marli, por ter sido cozinheira da Francana durante 14 anos, além de presidenta do Santos da Vila Tião por dois anos, ela confessa que atualmente precisa ir escondida em jogos decisivos. “É que o Beto tem um pouco de medo das brigas que vêm acontecendo atualmente e prefere que eu fique em casa”, diz.
Mas ela vai assim mesmo, juntamente com a nora e os netos. Ela chega um pouco mais tarde, depois que Beto já entrou em campo e olhou para a arquibancada a sua procura e senta-se quietinha em um canto. Por pouco tempo. Basta começarem os xingamentos ao filho para ela reagir.
“Aí eu já levanto e olho feio. Como todo mundo me conhece, então começam as brincadeiras”, se diverte Marli.
Mas, quando a coisa esquenta, a brincadeira fica de lado. Foi o que aconteceu em 2006, segundo Beto. Estavam jogando Vila Formosa e Ipiranga. Faltavam 15 segundos para o final do jogo. Na cobrança de um lateral, o atacante do Formosa resvalou de cabeça e tocou para um companheiro impedido completar para o gol.
“Foi um delírio, mas quando viram a assistente Telma Lopes (leia texto na página ao lado) com a bandeira levantada, partiram todos para cima dela, o time, a comissão técnica e alguns torcedores”, conta Beto. Ele entrou no meio para tentar ajudar e, quando percebeu, a mãe já estava ao seu lado, após ter pulado o alambrado.
“Eu levei uns empurrões, mas dei também. O pessoal gritava para eu sair de lá, mas como é que ia deixar meu filho e a bandeirinha no meio daquela torcida?”
O engraçado, no entanto, é que muitas vezes os xingamentos que Beto recebe da arquibancada partem da sua própria família: os filhos, os sobrinhos, a irmã, a mulher e até mesmo a mãe. “Às vezes, escapa até um f.d.p. E quando eu olho está todo mundo me zoando”, se diverte a mãe.
DUAS MÃES
Tanto Beto como Renato são unânimes em afirmar que todos os juízes e bandeirinhas têm sempre duas mães, uma que deixam em casa e outra que levam para o campo. No caso deles, porém, as duas verdadeiras também vão para o campo, o que acaba confundindo tudo. Mas os dois também reconhecem que elas já os livraram de muitos apertos, ocasiões em que poderiam ter sofrido agressões.
Beto e Renato dizem que, infelizmente, as brigas vêm se intensificando a cada dia. Segundo eles, está difícil apitar um jogo importante sem que haja algum problema com a arbitragem. “Tudo bem querer ganhar, mas é fundamental saber perder”, afirma Renato.
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