Alma gêmea


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Um amigo, já bastante cansado de suas várias e sucessivas desilusões amorosas, me disse que os adultos costumam fazer às crianças, três grandes revelações.

A primeira, que no Natal o Papai Noel entra sorrateiramente em nossa casa, de preferência pela chaminé, para nos trazer presentes. A segunda, é a cegonha que traz, no bico, os bebês. E a terceira, todos têm sua alma gêmea, aquela pessoa que se encarna no planeta para nos completar e que, portanto, devemos procurá-la incessantemente.

Já na pré-adolescência se descobre que Papai Noel não existe. Trata-se de uma alegoria criada para tornar o Natal mais encantador. Também se descobre, bem cedo, que os bebês chegam a terra graças a outros mecanismos e sem qualquer participação da cegonha.

Para meu amigo, porém, o problema está na terceira revelação. As as pessoas têm de conviver com ela por muitos anos e, na maioria das vezes, só nos desiludimos da busca pela alma gêmea já na velhice, ou próximo dela, após múltiplas expectativas frustradas. Evidente que essa visão radical dele foi fortemente influenciada por suas várias desilusões e após estar saindo do seu quarto (ou seria quinto?) relacionamento, alguns bem turbulentos.

Como bom mineiro, ‘garrei a pensar’: será que realmente somos todos como uma laranja cortada ao meio em busca permanente pela outra metade que está perdida neste ‘mundo de meu Deus’? A primeira certeza que tenho é a de que não fomos criados por Deus para vivermos sozinhos, isolados. Mesmos os conhecidos ‘solteirões convictos’, no fundo acalentam, sim, a vontade de encontrar companheira ou companheiro.

Também não resta dúvida de que há relacionamentos estáveis, onde prepondera o entendimento, a tolerância, o respeito à individualidade do outro e, principalmente, o amor. Nesses casos costuma-se dizer que eles encontraram a ‘metade da laranja’.

Identifico ainda pessoas que não conseguem se acertar com ninguém. Vivem inseguras e insatisfeitas, trocam de relacionamento como trocam de roupa e, no fundo, são carentes e infelizes, embora socialmente tendam a demonstrar o contrário.

Claro que não há fórmula eficiente para ajudar as pessoas a encontrarem o parceiro ou parceira ideal. Há sim, práticas que podem ajudar a tornar uma relação mais estável, criativa e feliz.

Arrisco-me, despretensiosamente, a sugerir algumas: primeiro, o respeito que deve existir às individualidades. A segunda, fidelidade à verdade, mesmo que se mostre dolorosa. E a terceira, o exercício constante da cumplicidade.

No meu entendimento o maior e mais eficaz aditivo do amor, e assim, maior combustível de uma relação estável e mais feliz é, sem dúvida, o culto permanente à cumplicidade entre os parceiros. É evidente que na teoria, a receita é conhecida. O problema é vivenciá-la.

Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial e professor da Faculdade de Direito de Franca

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