Faltam bancas de pesponto


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A migração de trabalhadores para os setores de comércio e serviços está travando a produção de calçados em Franca. Conforme reportagem publicada pelo Comércio na quinta-feira, 02/05, as bancas de pesponto da cidade já estão até dispensando encomendas.

A despeito dos problemas alegados pelos empresários calçadistas e também pelos donos dessas bancas, é importante que todos os envolvidos façam uma profunda reflexão sobre esse cenário, pois alguma coisa estranha parece estar acontecendo.

Um dos conceitos básicos do sistema capitalista é o da relação entre a oferta e a procura. Quanto mais se oferta um determinado serviço ou produto, mais barato ele se torna. Na linha inversa, quanto maior for a demanda por eles, maior será o valor pago, até que novos empreendedores se lancem na produção desses produtos e serviços escassos e a relação se equilibre, fazendo os preços caírem novamente.

Com a mão de obra se passa o mesmo, pois ela é sabidamente uma mercadoria comprada pelo empregador. Se estivesse em falta, seu valor/salário deveria subir, o que atrairia mais gente para as funções demandadas. É como se houvesse falta de pão na cidade. Rapidamente, surgiriam vários empreendedores que abririam padarias até que se regularizasse a oferta de pão, de acordo com o número de habitantes da cidade.

É sempre assim, o que é raro é sempre mais caro e o que é comum tende sempre ao mais barato.

Na indústria calçadista, porém, parece não prevalecer essa máxima do sistema capitalista. Apesar da falta de trabalhadores nas bancas de pesponto, não se percebe nenhum movimento no sentido de aumentar os salários desses profissionais ou melhorar suas condições de trabalho. E ninguém parece se mobilizar para mudar alguma coisa, nem mesmo questionar se ainda vale a pena manter a terceirização dessa fase da produção.

Ao contrário, o que se escuta são apenas lamentações. Uns brecam a expansão, outros travam a produção e outros tentam buscar bancas em cidades menores da região, onde a falta de emprego talvez ainda permita a manutenção dessas mesmas políticas de remuneração e de recursos humanos que hoje parecem afastar os trabalhadores francanos.

Tal fato, obviamente, é de se lamentar. Para um setor que está demandando constantemente ajuda dos poderes públicos para poder competir no mercado globalizado, a falta de mão de obra qualificada em uma cidade com tanto know how na área calçadista deixa entrever a falta de planejamento em longo prazo e certo desconhecimento em relação às modernas abordagens de gestão.

Mas como toda crise no fundo é uma oportunidade muito bem disfarçada, talvez esse seja o momento oportuno para que nossas indústrias comecem a mudar essa história, investindo mais em tecnologia, em planejamento e em recursos humanos, conseguindo assim, atrair mais profissionais.

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