Uma abordagem feita por policiais militares na noite da sexta-feira, dia 4, foi o estopim de uma sequência de confrontos entre policiais militares e moradores da Vila São Sebastião que já se arrasta há quatro dias. Quatro pessoas foram presas e uma baleada. As confusões transformaram o cruzamento das ruas Cláudio Silveira e Wilton Araújo Cintra, no bairro, em verdadeiro campo de guerra com moradores atirando pedras, garrafas e paus e a polícia respondendo com bombas de efeito moral, gás de pimenta e balas de borracha.
Os confrontos começaram na última sexta durante a abordagem a um veículo. O sapateiro DQS, 27 anos, teria xingado os PMs, que lhe deram voz de prisão. Como o sapateiro não obedecia, os PMs teriam, então, usado de força para prendê-lo.
Amigos e familiares do sapateiro teriam se revoltado e partido para cima dos policiais, que chamaram reforço. Em minutos, a rua estava tomada de viaturas, que foram recebidas com pedras, garrafas e paus pela população. Um PM foi atingido no rosto por uma pedra e passou por atendimento médico. Para conter a multidão, a polícia usou bombas de efeito moral, gás de pimenta e balas de borracha. “Isso aqui ficou parecendo uma praça de guerra. Era gente correndo e chorando para todo o lado”, disse um comerciante da área, que preferiu não se identificar.
Durante o confronto a boina de um dos soldados da Força Tática foi roubada por um dos indivíduos que confrontavam os policiais. No final, um sapateiro foi preso em flagrante por desacato, furto e resistência e recolhido na cadeia.
O sábado amanheceu um pouco mais tranquilo. Durante todo o dia, viaturas da Polícia patrulharam as ruas do bairro e, a todo o momento, eram hostilizadas pela população.
O clima voltou a piorar no final da tarde de domingo. Policiais iniciaram uma série de revistas no bairro. Foi numa dessas abordagens que o confronto recomeçou. Cláudio Adan Duarte Ramos, 23, estava em uma das esquinas com amigos, quando foi abordado pelos policiais. A partir daí, a história do que aconteceu na noite do último domingo ganha duas versões.
Segundo a polícia, os PMs teriam flagrado Cláudio vendendo drogas e, ao tentarem conduzi-lo ao Plantão, ele teria reagido e tentado pegar a arma do PM, um tiro teria sido disparado acidentalmente. Foi quando o outro policial decidiu atirar na perna de Cláudio, que precisou passar por cirurgia na Santa Casa. Ao assistir à cena, a população teria atacado novamente os policiais.
Para os familiares de Cláudio, a versão é outra. Segundo a mãe do rapaz, Maria do Socorro Ferreira, 42, o filho estava com amigos quando teria sido agredido pelos policiais e reagido. “Ele é um menino bom, sofre de epilepsia, não tem passagem pela polícia e não estava fazendo nada demais. Os policiais é que chegaram xingando e chutando. Ele apenas reagiu. A polícia diz que foi um tiro acidental, só que no local encontrei três cápsulas de balas.”
De acordo com Maria, os policiais disseram que não iam deixar o bairro em paz enquanto a boina roubada não aparecesse. “Eles estão vindo aqui toda hora e não respeitam ninguém. Xingam a gente, batem nos nossos filhos. Isso é um absurdo.”
Cláudio foi socorrido ao hospital, de onde, segundo a polícia, sairá direto para o CDP (Centro de Detenção Provisó-ria). “Desde ontem (domingo) às 19h30 eu não vejo o meu filho. O que sei é que ele foi operado para recompor o osso e agora está preso em um quarto com escolta policial na Santa Casa de Franca”, disse Maria.
TENSÃO CONTINUA
A confusão continuou na segunda-feira. Os moradores dizem que antes mesmo das 7 horas já havia policiais patrulhando o bairro. “Eles vieram com tudo. Já entraram em umas três casas quebrando tudo e agredindo as pessoas”, disse um senhor que pediu para não ser identificado.
Por volta das 12 horas, um novo confronto. Segundo a polícia, as viaturas foram novamente alvo de pedras e garrafas. “Nós viemos averiguar uma denúncia de tráfico de drogas e os ‘noias’ que defendem os traficantes quiseram nos atacar, mas identificamos antes. Não conseguimos prendê-los, mas pelo menos impedimos que eles jogassem rojões na viatura”, disse o tenente Elias Bonfim.
Na ocorrência, um menor de 15 anos e um sapateiro de 20 foram presos acusados de tráfico. Na casa onde estavam, teriam sido encontradas joias, pedras de crack, balança de precisão e sacos para embalar a droga.
Os populares dão outra versão. “Eles agrediram um monte de gente aqui. Não vamos admitir isso aqui não. Vamos protestar mesmo”, disse uma moradora da rua Cláudio Silveira.
Na noite de ontem, o clima nas ruas do bairro ainda era tenso. Os moradores se preparavam para uma guerra. “Eles (os policiais) não podem vir aqui xingar as pessoas, abusar do poder e achar que vai ficar por isso mesmo. Eles vão voltar e a gente não vai ficar quieto”, disse, em coro, um grupo de moradores reunidos no fim da tarde de ontem.
A major Silvana Sozza, comandante do 15º Batalhão da PM, disse que a polícia vai continuar fazendo o patrulhamento ostensivo no bairro e que não vai tolerar ataques aos policiais ou às viaturas. “O dia em que a polícia perder o moral com os marginais, pode fechar as portas. Não vamos aceitar ameaças. Continuaremos presentes e atuando.”
Colaborou Daniel Rodrigues
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