Não é à toa que o morcego age logo à tardinha ou mesmo no decorrer da noite. O horário facilita a sua atitude vampiresca. Antes de tudo, o maldito bicho rufla (dicionário faz bem, desenvolve o raciocínio) o seu psicodélico par de asas, voando ao redor da vítima. Com isso, neutraliza a sensação de pouso forçado no lombo do animal que vai ser atacado.
Uma vez atracado no corpo da presa, o morcego primeiro espalha circularmente a sua anestesiante saliva no lugar da mordida. Depois que os horríveis e agudos dentes adentram a carne, o único mamífero voador suga lentamente o suculento sangue.
Quando se sente saciado, o bicho sugador solta os dentes de uma vez só. Em seguida, volta a lançar saliva no ferimento provocado pela mordida. Esse procedimento serve para acelerar a cicatrização. O sangue fica então escorrido e ressecado pelo pêlo da vítima. Daí veio a expressão popular: ‘morde e assopra’. A mesma serve para caracterizar a atitude de certas pessoas que, primeiro, praticam uma maldade. Depois, elas vêm com agrados para amenizar o mal cometido. Como se vê, apesar do morcego ter servido de inspiração para o conhecido ditado, sua atitude se dá ao contrário: primeiro ele assopra. Só depois morde.
Figuradamente, o governo age como o morcego. Não há diferenças no comportamento. Ultimamente, a Presidente da República começou a criticar a taxa de juros cobrada pelos bancos. Depois de muito esbravejar, ela deu o assopro inicial, baixando a cobrança da correção monetária incidente sobre os empréstimos feitos nos bancos estatais. Tudo não passou de saliva. Ainda por cima, com poder anestésico. A mordida estava a caminho. Na tarde da última quinta-feira, o governo anunciou modificações no rendimento da caderneta de poupança. A sangria começou. No entanto, a mordida serve ainda como desculpa para forçar a queda dos juros.
Fácil entender essa matemática econômica e bancária. Se o rendimento da caderneta de poupança já era baixíssimo, caiu mais ainda. Antes os bancos já pegavam um dinheiro barato e vendiam caro. Sim, mesmo que as aplicações da poupança sirvam em grande parte para financiar a casa própria, os juros cobrados sobre as moradias econômicas sempre estiveram muito além do menos de 1% oferecido à poupança. De outra parte, o FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) sempre foi o primo pobre da caderneta de poupança. Esse tipo de aplicação forçada que o trabalhador faz todo mês, tem rendimento bem menor que a poupança. Além do mais, sua liquidez está atrelada a uma série de restrições.
Com isso, as fontes econômicas oficiais vão captar recursos a juros bem mais baixos. Vão continuar sugando muito mais rendas porque empresta depois a taxas exorbitantes. Será que um dia o assalariado vai perceber que a sua casa se transformou na vida do governo?
Antônio Araújo
Articulista e professor - tonin.palavras@uol.com.br
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