Domingo. Avenida Santa Cruz. Um homem liga para a emergência da Polícia Militar pedindo socorro, pois acabou de ser agredido e roubado por um grupo. Os bandidos fogem a pé, com os pertences pessoais da vítima, rumo a um posto de gasolina e abandonam um veículo em plena avenida. O solicitante passa as características dos envolvidos. Três carros da polícia se deslocam para o local rapidamente, mas não encontram vítima, ladrões, testemunhas ou carro. Toda a história não passou de um trote.
Em uma nova ligação, um homem informa a ocorrência de uma briga de bar no Jardim Aeroporto. Fala da existência de tiroteio e diz que há uma pessoa ferida no chão. Os policiais se mobilizam e partem para o atendimento. No local, a surpresa: a briga não havia existido e não tinha nenhum baleado no local.
Segundo dados do Batalhão de Franca, todos os dias em média 290 ligações como essas - falsas - são atendidas pelo Copom (Centro de Operações da Polícia Militar). O volume representa 10% das 29 mil ligações recebidas na central diariamente e ocupa policiais e carros que poderiam estar empenhados no atendimento a uma vítima real.
Entre os trotes, há até ligações envolvendo teor sexual e pessoas que ocupam a linha da Polícia Militar com pedidos de pizza ou simplesmente para gritar palavrões.
Para evitar esse tipo de desperdício financeiro e de pessoal foi sancionada no mês passado, pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), uma lei que prevê multa para quem realizar trotes nos telefones de atendimento da Polícia Militar (190), do Corpo de Bombeiros (193), e do Serviço de Atendimento Médico de Urgência, o Samu (192). Pela lei, o dono da linha originária da chamada falsa terá de pagar uma multa de R$ 1.239,35. A lei deve ser regulamentada em três meses para começar a valer.
Em Franca, segundo a PM, a maioria dos trotes parte de aparelhos celulares ou de telefones públicos (orelhões) e acontece durante a semana, no horário comercial, principalmente no intervalo de entrada e saída de escola. “A grande parte dos trotes é feita por crianças, mas também existem adultos com essa prática”, disse o comandante do Copom, capitão Marcos Alexandre Moraes de Araújo.
Muitos dos trotes, segundo ele, contêm informações de alguém ou de lojas que estariam sendo roubadas. “Eles informam que existe uma ou mais pessoas com arma de fogo praticando crimes.”
Os policiais, no entanto, não caem em todos os trotes. Há situações em que o trote é descoberto de imediato e o infrator é identificado. “Tinha um homem no bairro São José que ligava praticamente todo dia falando que uma pessoa de uniforme ou com a roupa suja de massa estava armada e em atitude suspeita. Vimos que a ligação era sempre do mesmo número. Identificamos o rapaz e descobrimos que a intenção dele era testar o sistema”, disse a cabo Daniela Behundunhi.
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