Conforme a semana vai terminando, bares e restaurantes vão se tornando mais atraentes e convidativos. Nada como um bom papo com os amigos, namorada ou família, tudo para acalmar o estresse da semana e aliviar as preocupações que vão se avolumando no decorrer dos dias.
Acompanhando esse papo e o ambiente aconchegante que geralmente o contorna, vem sempre aquela cervejinha, refrigerantes ou qualquer outra bebida, cercadas por alguns petiscos que tornam tudo mais saboroso. No entanto, na maioria das vezes esses aperitivos não se enquadram naquilo que a ciência poderia chamar de saudável.
É que nesses espaços a preocupação primeira é com a alma. Tornar o espírito mais leve e bem humorado, a despeito dos problemas que isso possa trazer para o físico no médio ou longo prazo. Nesses espaços não há lugar para uma porção de brócolis, alface ou jiló. Tampouco para abóboras, espinafre ou couve-flor. Pode ser que tomates, cenouras e pepinos consigam algum lugar em poucas mesas, mas apenas como complemento. Na maioria das vezes, reinam absolutos o torresmo, as frituras e a boa e conhecida picanha, com aquela camadinha de gordura que pode ser desculpada pela rúcula despretensiosa que a acompanha.
Gostemos ou não, essa situação é uma espécie de “terapia” que faz parte da dinâmica do mundo moderno. Nesses momentos, a ordem é relaxar e tirar o estresse. O problema, porém, é que a terceira lei de Newton continua válida. Ou seja, para toda a ação existe uma reação. Para as calorias que entram, outras deveriam sair, sob a pena de se acumular no organismo e causar estragos na estética e na saúde.
E a julgar pelos resultados da última pesquisa da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), realizada pelo Ministério da Saúde em parceria com o Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da USP (Universidade de São Paulo), essas calorias extras não estão saindo como deveriam e os brasileiros estão ficando cada vez mais gordinhos.
Marina Manochio Pina, professora e coordenadora da Clínica de Nutrição da Unifran, diz que, apesar de uma maior consciência das pessoas em relação à importância do exercício físico e da alimentação mais balanceada, parece que estamos sucumbindo às calóricas tentações que o mundo industrial nos oferece.
De acordo com o estudo do Ministério da Saúde, o percentual de pessoas acima do peso no Brasil saltou de 42,7%, em 2006, para 48,5%, em 2011. Nesse mesmo período, o percentual de obesos também subiu, passando de 11,4% para 15,8%. Para chegar a esses resultados, a pesquisa ouviu 54 mil adultos em todas as capitais e também no Distrito Federal, entre janeiro e dezembro do ano passado.
O aumento de massa corporal incide sobre os dois sexos. Em 2006, 47,2% dos homens e 38,5% das mulheres estavam acima do peso ideal. Em 2011, as proporções subiram para 52,6% e 44,7%, respectivamente.
E o problema maior é que a obesidade e o excesso de peso avançam com o tempo. Quanto mais velhos, homens e mulheres vão ficando mais redondinhos (ver quadro nesta página), o que acaba trazendo sérias consequências para a saúde.
Para Alexandre Ferreira, secretário de Saúde de Franca, é realmente difícil mudar os hábitos e o comportamento de um adulto. Por isso, diz, o mais importante, em termos de saúde pública, é conscientizar as crianças.
Há vários fatores que podem explicar esse aumento de peso. Segundo a professora Marina, o principal deles é o estilo de vida agitado que levamos hoje em dia.
“A vida atual nos convida para o sedentarismo, o fast food e o estresse. Nessa agitação, adquirimos hábitos pouco adequados. Comidas prontas, salgadinhos e outros produtos com alto teor de gordura trans”, afirma.
VILÕES
O estudo identificou que refrigerantes, bebidas alcoólicas, feijão, carnes gordurosas e leite integral estão entre os principais vilões da obesidade, uma vez que são ingeridos em excesso e com muita regularidade. Em relação às frutas, um alimento importante e bastante recomendado em qualquer programa de reeducação alimentar, apenas 20,2% dos brasileiros ingerem a quantidade recomendada pela Organização Mundial de Saúde, que é de cinco porções diárias.
Apesar de não haver uma pesquisa municipal sobre a população adulta, o secretário Alexandre Ferreira estima que a situação não seja muito diferente em Franca. “Está aumentando o número de doenças ligadas à obesidade, como também o consumo de remédios para combatê-las.”
Porém, em relação às crianças, já existem dados mais concretos. Nos últimos dois anos, a Secretaria de Saúde aplicou uma pesquisa aos alunos de 1ª a 5ª séries das escolas municipais. Dentro de um universo de aproximadamente 7.500 alunos, 13% estavam acima do peso e 1,6% obesos, índice que se manteve estável nas duas pesquisas.
Com esses resultados, a secretaria iniciou o projeto Sabor Saudável, uma iniciativa que visa conscientizar as crianças sobre os benefícios de uma alimentação saudável e sobre os problemas da obesidade. O projeto busca atingir também os pais das crianças obesas e de baixo peso, tentando mostrar-lhes os perigos que estão correndo seus filhos e as formas de reverter essa situação.
“Essa pesquisa ainda é recente. Vamos aplicar pela terceira vez neste ano, mas sabemos que os hábitos alimentares não mudam de uma hora para outra”, completou Alexandre.
ESPORTES
Um dado curioso da pesquisa nacional é que também aumentou o número de brasileiros que pratica algum tipo de atividade física. O percentual de sedentários no país caiu de 15,6%, em 2006, para 14,1% em 2011. Os homens são mais ativos, concentrando 39,6% dos pesquisados. Entre as mulheres, apenas 22,4% se exercitam regularmente.
Para a professora Marina, esse dado é bastante significativo, pois as pessoas começam a se conscientizar de que a obesidade não se combate com dietas milagrosas e de uma forma imediata, mas sim com uma boa reeducação alimentar e bastante atividade física.
“Na sociedade contemporânea, as pessoas querem tudo intensa e rapidamente. Querem comer, beber à vontade, mas também querem emagrecer de forma imediata e isso não existe”, afirma Marina.
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