Os últimos acontecimentos envolvendo a Escola Estadual ‘Torquato Caleiro’ estão pautando na mídia e nas conversas informais um importante tema que, se não for bem conduzido, pode comprometer um dos aspectos mais importantes da educação moderna que é, justamente, o de oferecer educação mais ampla, de maior qualidade e comprometida com a formação integral das futuras gerações.
Esse assunto torna-se relevante para a sociedade brasileira na medida em que observamos que nossas crianças não passam, em média, mais do que quatro horas por dia nas escolas de Ensino Fundamental (segundo levantamento feito pela FGV, ano passado). É muito pouco comparado à realidade da maioria dos países.
Esse nosso caso específico, o do EETC, nos alerta para alguns aspectos importantes que devem ser considerados quando da implantação dessa mudança de modelo escolar. O primeiro diz respeito ao envolvimento dos professores, funcionários e pais no processo. Não há mudanças importantes e fundamentais sem a participação de todos os interessados. A falta da participação cria indisposição e equivocada preocupação, principalmente por parte dos professores e funcionários das unidades transformadas, como vimos no comunicado divulgado pela equipe docente do EETC neste Comércio.
Acredito, como eles mesmo publicam, que não há discordância com a implantação da escola de tempo integral, mas, reservam-se no direito, justo, de saber o que acontecerá com professores e funcionários envolvidos na mudança.
O Brasil já tem inúmeras experiências de escolas de período integral onde a integração entre o conteúdo curricular e as atividades complementares acontecem satisfatoriamente. O Estado do Paraná tem ações nesse sentido, valorizando as atividades mais livres, mas, também, as atividades classificadas em três eixos: científico-cultural (atividades de complemento educacional e artísticas), expressivo-corporal (atividades esportivas e cênicas) e de integração entre a comunidade e escola.
Assim, os professores do EETC estão cobertos de razão em querer saber como essa transformação os afetará, mas, não podem permitir, em hipótese alguma, que essa preocupação emperre a implantação piloto desse projeto educacional. Aliás, ao questionarem seu futuro papel, ajudam a garantir que explicações sejam dadas pelo Estado quanto ao conteúdo do projeto.
Não podemos incorrer no erro de termos mais um projeto assistencialista que apenas tire as crianças das ruas sem nada oferecer à sua formação holística.
A LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), no seu art. 34 estabelece a implantação gradual do período de permanência na escola. Já estamos atrasados.
Nos Estados Unidos (para citar um país muito copiado pelos brasileiros) as escolas funcionam em período integral há décadas e, com devidas ressalvas no seu conteúdo, explicam o porquê do desenvolvimento e do sucesso que os norte-americanos tiveram na sua história recente.
Tenho certeza absoluta que escola em tempo integral faz diferença positiva na formação de uma sociedade mais igual e mais justa.
Cassiano Pimentel
Professor universitário e agente de exportação
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