Anúncios nas portas das fábricas e nas páginas dos jornais de “Precisa-se de banca de pesponto” se tornaram bastante comuns em Franca. As fábricas de calçados costumam terceirizar essa parte da produção, mas têm passado sufoco para conseguir contratar as bancas. Com volume alto de serviço e dificuldades para admitir mais funcionários, seja por falta de mão de obra ou por questões trabalhistas, os “banqueiros” estão dispensando clientes. Para complicar, é período de produção de botas, que consomem mais tempo para serem pespontadas em comparação a outros modelos de sapatos.
Segundo o Sindifranca (Sindicato da Indústria de Calçados de Franca), existem no município 214 bancas de pesponto. José Melo, 50, é proprietário de uma delas, no Jardim Brasilândia, há 20 anos. Melo disse que nos últimos meses rejeitou pedidos de cerca de cinco fábricas por mês.
Com sete funcionários e produção diária de 70 pares de calçados femininos e masculinos, poderia pespontar mais que o dobro - 150 pares, mas não encontra interessados em trabalhar na banca e disse não ter condições de assumir os encargos trabalhistas com a ampliação do quadro de funcionários. “A maioria dos jovens não quer mais saber de sapato. As pessoas estão partindo para lojas e outros ramos. Minha banca é legalizada e todos os encargos com funcionários eu que assumo, porque as firmas não dividem com a gente”, disse Melo, que estima ter despesa de R$ 7 mil mensais somente com funcionários. “Se a gente quiser aumentar mais, tem condições, mas não compensa.” Nas bancas ouvidas pela reportagem, as indústrias pagam de R$ 4,80 a R$ 10 por par pespontado, dependendo do modelo.
Luiz Nascimento, dono da LN Pesponto, que tem 22 anos de atividade, é procurado todos os dias por indústrias calçadistas que precisam terceirizar parte de sua produção. Luiz se vê obrigado a dispensar serviços por escassez de mão de obra. Desde janeiro está com três vagas abertas para coladeiras de peças e não consegue preenchê-las. “As pessoas estão partindo para outro tipo de serviço. Não aparece ninguém nem para aprender, não sei se pelo salário baixo. Se contratar as coladeiras, consigo pespontar até 300 pares por dia, hoje fazemos 230”, disse.
O “banqueiro” se queixa do preço pago pelo pesponto. “Recebemos no máximo R$ 6 por par e deveria ser no mínimo R$ 8 para trabalharmos com tranquilidade. A banca é totalmente legalizada e pagamos todos os encargos com os funcionários. Temos de repassar o aumento decidido pelo sindicato e geralmente as empresas não repassam para a gente ou fazem um reajuste menor, fica defasado.” O pespontador ganha em média R$ 1.200 por mês e coladores de peças, R$ 900.
Pelo menos dez indústrias que procuraram a ASS Pesponto neste ano não conseguiram vaga para pespontar seus sapatos. O proprietário da banca Ailton Santos não tem interesse em ampliar a produção. “Não compensa.” Uma outra razão que impossibilita atender mais clientes é o pesponto de botas por ser mais trabalhoso e demorado. “O mesmo pessoal que pesponta 120 pares de botas por dia, faria 180 de outros calçados.”
MIGRANDO
“Banqueiros” e fabricantes de calçados afirmam que muitos trabalhadores do setor decidiram migrar para outros ramos. “Conheço pessoas que deixaram as bancas e foram para dentro das fábricas porque se paga melhor e outras que foram trabalhar nos hipermercados que abriram na cidade, em obras da MRV ou fábricas de lingeries”, disse a empresária Simone da Silva Oliveira.
Esse é o caminho que Meiryclair da Silva, 19, pretende seguir. Ela e o namorado, Marcos Júnior da Silva Reis, 20, montaram uma banca de pesponto no Jardim Paulistano I há dois anos. Estão hoje com mais quatro funcionários e também têm dispensado novas encomendas, mas ela pensa em desistir do negócio. Fez um curso de cabeleireiro e quer até 2013 abrir o próprio salão. “É um serviço muito cansativo. Trabalhamos das sete às sete e aos sábados. Quero uma vida melhor.”
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