Afasia e histeria


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A nossa sociedade está afásica, histérica e precisa de tratamento urgente! Faço essa afirmação de forma analógica e baseada nos estudos de Freud e dos conceitos relativos à afasia e histeria.

A fala é uma função e as desordens da fala são da ordem da associação, logo, uma lesão não pode eliminar funções distintas, ela apenas limita o funcionamento geral do aparelho. Afasia, portanto, é um distúrbio da fala. A histeria é uma psiconeurose cujos conflitos emocionais inconscientes surgem na forma de uma severa dissociação mental ou como sintomas físicos independentemente de qualquer patologia orgânica ou estrutural conhecida, quando a ansiedade subjacente é ‘convertida’ num sintoma físico. Tanto na afasia quanto na histeria, os dois sistemas de representações, o de palavra e o de objeto, sofrem outras lesões.

Partindo dessas premissas, não tenho dúvidas que precisamos resgatar Freud e seus ensinamentos para termos uma sociedade sadia.

Vemos a todo instante palavras, gestos, condutas e ações dissociadas de seus verdadeiros signos e valores. Embora cada ser humano tenha um significante próprio para um determinado signo, algumas representações estão deixando de existir e de fazer a sua função. A figura do pai, imago de autoridade, de contenção, da lei, está deixando de existir. Adolescentes, sem um referencial da ‘figura paterna’ acham que podem tudo, até mesmo violentar a escola, os professores, os amigos da escola. Há uma dissociação do signo com o significante. Que sentido tem a escola para um jovem que não consegue dar significado para a mesma? Por outro lado, os professores, que ocupam o lugar de transmissão do saber, não sabem como lidar com a violência, pois temem por sua integridade física, emocional e patrimonial. Infelizmente, é comum ouvir professores dizerem que dão suas aulas e, se o aluno quiser entender que entenda, se quiser fazer arruaça é problema dele e não meu, se os pais não deram educação não sou eu quem devo dar etc.

Há inúmeras pessoas dependentes de ansiolíticos. Não duvido que há por trás de tudo estejam indústria e comércio de remédios. Dúvida é o que oferece à intuição uma forma de critério negativo de evidência. Para Freud, a dúvida é o apoio de sua certeza. Algo que deve ser preservado pode ser também algo que deve ser revelado. Quanto mais doentes, mais remédios – mais lucros. Ao nomear a doença, o paciente ‘encontra’ seu mal, toma o remédio e acredita na ‘cura’. O consumismo está obrigando a ter cada vez mais e mais. É preciso ter para ser feliz, e se não tiver, devo fazer de tudo para ter, até mesmo perder os valores básicos e essenciais de uma sociedade civilizada.

Veja o escândalo de políticos envolvidos com criminosos, tudo em nome do ter. A pessoa passa a viver um mundo de fantasia num mundo real, passa a ter comportamento inaceitável como aceitável, é uma petit folie – pequena loucura, tal como a histeria. O capitalismo está destruindo a espiritualidade do povo e essa perda está afetando os mais elementares padrões éticos.

É preciso tornar livre, acessível e de forma responsável os atuais traumas da nossa sociedade para tentar elaborá-los, sob pena de criar uma sociedade de histéricos e afásicos. Começamos por mim, numa cadeia formada por nós, a refletir sobre o valor do signo e do significante das palavras e dos objetos.

Acir de Matos Gomes
Advogado, professor universitário

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