O compositor e cantor Raul Seixas sempre privilegiou o lado místico-metafísico das situações cotidianas para escrever suas letras. Provavelmente influenciado pelo conteúdo do filme No Dia em que a Terra Parou, que apresenta seres alienígenas invadindo o espaço terrestre, ele compôs uma inteligente canção, usando o mesmo título.
A letra de No Dia em que a Terra Parou mostra a paralisação de uma série de trabalhos corriqueiros: ... ‘Foi assim/ No dia em que todas as pessoas/ Do planeta inteiro/ Resolveram que ninguém ia sair de casa/ Como se fosse combinado/ O empregado não saiu pro seu trabalho/ Pois sabia que o patrão não tava lá/ Dona de casa não saiu pra comprar pão/ Pois sabia que o padeiro também não tava lá/ E o ladrão não saiu para roubar/ Pois sabia que não tinha onde gastar/ E o guarda não saiu para prender/ Pois sabia que o ladrão também não tava lá’...
Como se vê nesta parte da letra, o ato de roubar está arrolado a diversas outras atividades profissionais. O ladrão foi simplesmente rotulado de ladrão. E faz o que faz somente para gastar aquilo que não é dele. Fica então estranho o fato de em Franca os ladrões serem qualificados de sapateiros pelos meios de comunicação. Se fossem sapateiros, estariam trabalhando.
Preste atenção nas notícias policiais. Na maior parte das vezes em que se prende alguém roubando, o ladrão aparece como sendo sapateiro. Isso se transforma numa grande ofensa para a enorme classe trabalhadora da cidade. Sapateiro, que é sapateiro, trabalha. Não fica por ai roubando.
A impropriedade da ocupação dos acusados de roubo ocorre na elaboração do BO (Boletim de Ocorrência) policial. Quando perguntado sobre a sua profissão, para não se complicar mais ainda, o meliante diz que é sapateiro. Cabe aos repórteres filtrar tal informação. O plausível seria identificar a pessoa presa apenas pelo nome. Ou, no caso de se usar só as iniciais, informarem que ABC foi preso em flagrante etc. e tal.
Aliás, quem é pego roubando, no momento, não passa de ladrão. O agitador Raul Seixas cravou isso num dos versos da letra: No Dia em que a Terra Parou. Já o pacifista Gibran Khalil Gibran, no livro O Profeta, assegura que quem rouba também se mantém na claridade, mas de costas para o sol. O amigo do alheio carrega sua liberdade como se fosse um grilhão.
Numa alusão bíblica, o libanês Gibran continua: ‘Sempre vos disseram que o trabalho é uma maldição, mas eu vos digo que trabalhais para acompanhar o ritmo da terra. E todo trabalho é vazio, exceto quando há amor. Se não podeis trabalhar com amor, melhor seria que abandonásseis vosso trabalho e sentásseis à porta do templo a solicitar esmolas daqueles que trabalham com alegria. Mas nunca roubeis dos trabalhadores’.
Se Deus condenou Adão a viver com o suor de seu rosto e Eva a sofrer a dor do parto, a mulher levou a pior na condenação bíblica, porque passou a trabalhar também. Entretanto está tudo bem acertado: é melhor trabalhar por necessidade do que por terapia.
Antônio Araújo
Articulista e professor - tonin.palavras@uol.com.br
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