Os ovos da Nina


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“Morro de medo de ovos” - Alfred Hitchcock (1899-1980) diretor de cinema 

Chegava em casa noite dessas quando vi a cena. Nina, a delicada cozinheira da novela das nove, entrava no quarto de uniforme e se dirigia, bandeja sustentada nas delicadas mãos, à malévola Dona Carminha, um tanto amuada em cima da cama : “- Coma , Dona Carminha, vi que a senhora chegou aborrecida da rua, então lhe fiz esses ovos”. A megera: “ Nossa, que delícia, nunca comi ovos assim. Como se chamam?” A meiga, tão disfarçada: “- Ovos Benedict.”

Já havia lido que o João Manoel Carneiro, autor de Avenida Brasil, tinha exigido cozinheiro para preparar as delícias que Nina, outrora Rita, perpetra na cozinha do ex-craque Tufão, jogador de futebol que enricou e leva vida mansa numa casa grande e de estilo kitsch, onde a sala de refeições é pano de fundo para cenas geralmente hilárias: precisam avisar à Eliane Giardini que ela está gritando muito e ao tal Max que é feio falar com a boca cheia.

Enfim, a comida tem dado água na boca, porque não é, como em outras novelas, de plástico. É iguaria fina, elaborada pelo chef Écio Cordeiro de Mello, que além de contratado para fazer os pratos, também deu aulas à atriz Débora Falabella a fim de ela que desempenhasse perfeitamente o seu papel. Assim o espectador tem visto desfilar por ali folhas frescas com gorgonzola, risoto de pera com brie, caldinho de peixe com croutons, omelettes aux fines herbes e até porções delicadas de baba-au-rhum, uma sobremesa de difícil preparo. O público que aguarde, pois dizem que vêm muitos banquetes pela frente, antes que a casa de Tufão venha abaixo.

Madeleine no chá de tília, a cena que flagrei fez-me resgatar de repente este prato que havia comido há muito tempo, Ovos Benedict. Como pudera me esquecer? Lembrei-me do molho, seu levíssimo gosto cítrico e alguma coisa mais que a memória não recuperava. Fiquei atiçadíssima, com vontade enorme de comer aquilo, fui atrás da receita. Encontrei-a no impecável Michel Roux: ovos pochés, colocados sobre tiras de presunto cru, por sua vez acomodados em cima de fatia de pão tostado, tudo bem coberto por molho holandês, manjar de deuses. Para finalizar, umas pitadas de páprica picante. Páprica! Era o sabor que eu queria lembrar!

No dia seguinte fiz a receita. Hummm. Algo para comer fora de hora, quando a fome bate; ou num domingo quando a preguiça baixa e a gente nem quer almoçar de fato, só beliscar alguma coisa. Os Ovos Benedict são perfeitos para essas ocasiões.

Tome nota. Comece tostando fatias de pão de forma. Depois, faça o molho holandês: numa tigelinha de louça ou vidro bata as gemas misturadas à água e temperadas com sal, pimenta e suco de limão. Leve ao fogo em banho-maria e mexa com o fouet ou colher de pau até engrossar, o que leva cinco minutos. Junte em seguida a manteiga, continuando a mexer por mais dois minutos. Desligue o fogo, retire a tigela, reserve. Agora faça os ovos. Em panela pequena ferva a água com uma colher de vinagre de maçã. Quando começar a ferver, faça um redemoinho com a colher e coloque dentro o ovo, um de cada vez. Conte três minutos, tempo para que a clara coagule e a gema fique mole. Arme o prato: fatia de pão, tiras de presunto, ovo pochê, bastante molho holandês, pitada de páprica. Se quiser, enfeite com algum verde. E deguste, pensando se Dona Carminha merece tal maravilha...

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