Religião: Vida moderna afasta jovens dos seminários de Franca


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VOCAÇÃO - O padre e reitor Adilson Fortunato (no centro) com os 12 ingressantes do Seminário Diocesano de Franca
VOCAÇÃO - O padre e reitor Adilson Fortunato (no centro) com os 12 ingressantes do Seminário Diocesano de Franca

Houve um tempo em que boa parte das famílias brasileiras tinha um de seus filhos dentro da Igreja Católica. Tempos antigos, em que as famílias eram grandes e aquele Brasil mais rural era quase totalmente católico. Nos dias de hoje, porém, as coisas mudaram bastante. O país tornou-se praticamente urbano, as famílias agora têm menos filhos e a sociedade voltou-se intensamente para o consumo e para o materialismo.

Como consequência, diminuiu bastante o número de ingressantes nos seminários do país. Em Franca, não é diferente. De acordo com o padre Adilson Fortunato, responsável pelo Seminário Diocesano de Franca, o número de vocacionados realmente diminuiu na última década, apesar de ter registrado um leve aumento neste começo de ano (ver quadro nesta página).

No caso do Seminário dos Agostinianos, que funciona na Capelinha, a diminuição foi ainda mais acentuada. Segundo o frei Helton Pimenta Fernandez, coordenador do seminário, em 2001 havia 25 seminaristas. Hoje são apenas seis.

Para o padre Adilson, a diminuição das vocações sacerdotais estaria ligada a vários fatores. Um deles se refere às transformações da estrutura familiar, com a diminuição do número de filhos por família também entre os católicos. Houve também, diz o padre, alguns momentos de esfriamento no trabalho vocacional da paróquia nos primeiros anos da década passada.

Outro ponto importante para explicar a queda de seminaristas, segundo o padre Adilson, foi um intercâmbio entre as casas de formação de Franca e Jaboticabal, um acordo que durou três anos e, apesar dos pontos positivos, trouxe também algumas mudanças que afetaram o processo vocacional.

“A determinação de não permitir que os seminaristas frequentassem grupos e movimentos dos quais eram membros antes do ingresso no seminário contribuiu para inibir a procura dos jovens pela carreira de padre.”

O frei Helton, dos Agostinianos, concorda que os atrativos do mundo urbano sobre os jovens estão entre os principais motivos da crise vocacional. “As vocações sempre estiveram mais centradas no ambiente rural. Como a maioria hoje mora nas cidades, expostos a todos esses apelos da modernidade, fica mais difícil para um jovem decidir-se pela vida mais austera do seminário.”

De acordo com o frei, o grande desafio para Igreja atual é conseguir conciliar a fluidez do mundo externo com a disciplina do seminário e fazer isso sem perder a essência e a fidelidade aos princípios que sempre defendeu.

O padre Adilson credita o pequeno crescimento do número de ingressantes no seminário registrado no início deste ano ao trabalho desenvolvido pelo novo bispo de Franca, dom Pedro Luiz Stringuini, que colocou a questão das vocações como uma de suas prioridades e tem procurado estar mais próximo dos jovens.

Por meio de sua experiência como assessor diocesano do Setor Juventude da Diocese de Franca, o padre Adilson acredita que o país começa a vivenciar uma nova fase da religiosidade católica, que não passa necessariamente pelos seminários.

“Há muitos jovens hoje em dia que estão vivendo intensamente a religiosidade, mas por meio de movimentos, grupos ou comunidades cristãs, como os Arautos do Evangelho, por exemplo, sem nenhuma necessidade de se tornarem sacerdotes. Percebo, inclusive, certa radicalidade em alguns deles, até mesmo no que diz respeito à castidade.”

No caso dos Agostinianos, o frei Helton explica que eles atualmente trabalham a figura de um promotor vocacional, que é treinado para difundir os princípios da ordem e tentar atrair jovens para o seminário, utilizando para isso vários meios que produzem o que eles chamam de propaganda vocacional, inclusive a internet, que tem se mostrado um meio bem efetivo.

Para esses dois sacerdotes, no entanto, uma das maneiras mais eficazes para atrair e manter esses jovens no caminho do sacerdócio é a personalização das relações que se estabelecem entre a estrutura do seminário e cada um dos seminaristas.

No Seminário Diocesano, existe uma estrutura que busca constantemente amparar cada um dos seminaristas e aliviar sua carga de estresse.

“Além do reitor, que sou eu, temos também uma psicóloga e dois padres orientadores que estão sempre à disposição dos seminaristas para conversar e discutir seus problemas”, completa Adilson.

VOCAÇÃO
André Luiz Rodrigues, guaraense que está há seis anos no Seminário Diocesano, não consegue explicar por que deixou os prazeres e a dinâmica da vida moderna para se dedicar a uma vida de estudos e abdicação. Mas, em compensação, tem certeza do caminho que escolheu. Hoje, aos 26 anos e próximo de ordenar-se, diz que desde criança pensou em ser padre.

“Sempre me chamou a atenção a serenidade dos padres, a forma calma de falar e de se portar, o que me parecia um evidente contraste com a correria da vida moderna.”

Para o seminarista, não existe uma decisão definitiva e racional sem questionamentos e retrocessos. A opção de ser padre é primeiramente uma sensação, algo íntimo ligado ao emocional e à fé. “É como se fosse um chamado que você sente. Não tem explicação. Depois vem a racionalização durante o processo, porque a caminhada não é fácil.”

Para Diogo Augusto de Melo Avelar, natural de Ituverava e há quase dois anos no seminário, também não é fácil explicar o motivo da escolha. “Eu tenho vontade de fazer a diferença, de levar o Deus que eu acredito para outras pessoas, principalmente em um momento em que o número de católicos está diminuindo, pelo menos em minha opinião.”


 

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