A (difícil) arte do implícito


| Tempo de leitura: 5 min

Na breve apresentação que faz de seu mais recente título, Veredas da Caminhada, reunião de histórias curtíssimas cuja concisão impressiona, Caio Porfírio Carneiro diz, retomando uma fala do escritor francês Daniel- Rops, que “o conto é a arte do implícito”. Arte difícil, que pede exercício e vivência, eu acrescentaria.

Exemplificação perfeita da frase de Rops, Veredas marca os cinquenta anos de lançamento do magnífico Trapiá e enseja ao autor afirmar que em cinco décadas muito mudou, “como mudaram as artes e o mundo.” Tais palavras desvelam lucidez: sentir-se mudado como o texto que se constrói é demonstrar senso de realidade, é exibir olhar sem ilusões, embora com alguma esperança, para o tempo e as transformações que este provoca de forma inexorável.

De Trapiá, coletânea singular de contos que se organizam como novela, indicado desde 2009 para compor a lista de leituras exigidas pelos vestibulares da Universidade Federal do Ceará, passando por outras criações que conquistaram láureas importantes, Caio vem apurando a forma, no sentido de torná-la cada vez mais enxuta e densa. No seu último livro, o contista oferece ao leitor pequenas histórias apanhadas em seu centro nervoso, quase sempre sem informar as razões que levaram personagens ao momento de conflito, e muito menos sem preocupação em esclarecer o que ocorreu depois do ponto de clímax. Os relatos evocam espocar de flashes que uma máquina dispara em diferentes direções, fotografando o instante oferecido à contemplação.

Nos contos de Veredas, a cronologia é uma ilusão, quando muito apenas sugerida como em Flor silvestre, onde “há vagas lembranças do passado distante”. A direção é também uma incógnita, pois os personagens, situados em espaços públicos ou domésticos, quando não enquadrados por janelas ou sobre terraços perigosos, mostram ora desnorteamento aflitivo como em O sorriso, ora falta de destino como em Pontos na paisagem. O que não significa imobilidade, pois os seres humanos retratados estão sempre em movimento, expondo suas fragilidades, sofreguidões, incertezas, enganos, ansiedades, culpas e loucuras. Há ainda alguma ironia em Ida e vinda; traços de sadismo e ingenuidade fazendo par em A ginasta; quase sarcasmo em Auxílio. E muita solidão em Busca e na maioria das histórias que o narrador nos conta, cravando um momento único que capta como expressão de nossa humanidade. Com esses pedaços de sentimentos, às vezes difíceis de nomear, tece histórias como A reforma, onde as linhas narrativas se cruzam logo nos primeir
os parágrafos, trançando-se de forma nervosa para se amarrarem no final em nó górdio. Ou então já chegam embaralhadas no monólogo que cresce de forma dramática, com violência sugerida e estupefação instigante em A vereda.

As histórias assumem então conotação impressionista, tanto pelo viés dos personagens, apresentados sob impacto de uma percepção, quanto da parte do leitor, desafiado a refletir sobre o que lhe é contado. Em A notícia, a total elisão do significado expresso pelo título lembra uma caixa cuja tampa não conseguimos abrir a não ser com nossa imaginação. Não há oferecimento de qualquer chave: seu conteúdo blindado é o que o leitor deseja, ou o que imagina segundo suas projeções, pois dele não temos nenhum dado registral. De certo, apenas o fato de que “a notícia” causa indignação e dor a duas pessoas definidas apenas em seu gênero. São essas dor e indignação a matéria prima focada pelo narrador.

Dos 29 contos, poucos exibem nomes próprios, o que pode ser considerado recurso usado pelo autor para expressar emoções comuns a todos, homens e mulheres. Um tanto atônitos estes seguem pela vida que flui sem relação de causa e efeito, mal compreendida como um sonho interrompido ou como nuvens que se esgarçam. O que é já não é ; nada se mostra totalmente explícito. A não ser a datação do autor ao final de cada conto, com registro de lugar, dia, mês, ano e hora em que o escreveu. Mas como é algo também sem linearidade no virar das páginas, este calendário apenas reforça a percepção de fragmentação, esta talvez a palavra-chave para contextualizar o livro. O enredo, como o vimos no realista Trapiá, deixa de existir e cede lugar à descrição de estados psíquicos num mundo em crise de valores humanistas. Veredas da Caminhada é um livro pós-moderno.


OBRA VASTA

Caio Porfírio Carneiro

“O estilo (...) de Caio Porfírio Carneiro projeta densidade humana forçando o leitor a participar da história (... ) O epílogo força qualquer um a pensar sobre a complexidade do mistério da existência.”

Estas frases, parte do comentário do escritor Cyro de Matos a respeito do livro de estreia de Caio, Trapiá, ajustam-se com perfeição à definição do espírito que move a escrita de Veredas da Caminhada, o último livro publicado. A forma enxugou-se ainda mais ao longo das décadas e isso é flagrante. E a complexidade de toda existência, que inquieta o ficcionista e o leva a vasculhar seres e erguer cenas, está presente desde as primeiras linhas do livro comentado ao lado.

Caio construiu obra vasta , transitando por vários gêneros, manifestando-se em prosa e verso. Trapiá, O Menino e o Agreste, O Casarão, Chuva- Os Dez Cavaleiros, O Contra-Espelho, Dez Contos Escolhidos, Viagem Sem Volta, Os Dedos e os Dados, Maiores e Menores, O Sal da Terra, Uma Luz no Sertão, Bala de Rifle, A Oportunidade, Três Caminhos, Dias sem Sol e outros, inclusive literatura infanto-juvenil, mostram quão fértil tem sido a vida deste criador de mundos.

Reconhecido pela Academia Brasileira de Letras, que lhe concedeu o prêmio Afonso Arinos por O Menino e o Agreste, e pela Câmara Brasileira do Livro que lhe outorgou o Jabuti por O Casarão, teve o romance O Sal da Terra traduzido para o italiano, o árabe e o francês.

Nascido em julho de 1928 em Fortaleza, ali se criou e se formou. Em 1955 mudou-se para São Paulo, onde reside até hoje. Desde 1963 exerce a função de secretário administrativo da União Brasileira de Escritores. É amigo dos escritores Luiz Cruz de Oliveira, Regina Bastianini e outros radicados em Franca, cidade que visita de vez em quando. (SM)

Serviço
Título: Veredas da Caminhada
Autor: Caio Porfírio Carneiro
Gênero: Conto
Número de páginas: 80
Editora: RG

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários