Na ampla casa da dona de casa Maria Antonieta Caleiro Palma, 89, em Franca, portas-retratos expostos sobre o piano na sala trazem lembranças dos momentos dela de lazer e festas ao lado do marido, filhos, netos e também da empregada da família, Carmem Bertolino. A foto mostra as duas no aniversário-surpresa que a família preparou para comemorar os 60 anos de Carmem. Hoje ela tem 77, sendo 62 anos dedicados aos Caleiro Palma.
A doméstica não se casou nem teve filhos, mas ganhou uma nova família no emprego. Carmen se orgulha do tempo de profissão na mesma casa, onde é tratada como se fosse da família. “Eles não me consideram assim como uma empregada, é mais como da casa. Sei tudo da família. Eles foram bons para mim a vida toda”, resume Carmem.
Como ela, outras empregadas domésticas trabalham há anos para a mesma família. Viram os filhos das patroas nascer, trocaram suas fraldas, viram os meninos crescer, casar e ter filhos, acompanharam as conquistas e percalços dos patrões e patrõezinhos.
O Sindicato de Trabalhadoras Domésticas de Franca e região estima que existam em Franca 5 mil empregadas domésticas. No Brasil, segundo o Sindoméstica, são 7 milhões. No próximo dia 27 é comemorado o Dia Internacional da Doméstica. A profissão ganhou mais evidência com a estreia, na semana passada, da novela Cheias de Charme, da Globo, que tem como protagonistas três domésticas, interpretadas pelas atrizes Isabelle Drummond, Leandra Leal e Taís Araújo.
Carmem começou a trabalhar ainda menina como empregada na casa de uma família, mas não suportou a estupidez da patroa e abandonou o serviço 15 dias depois. “Ela jogava as coisas no chão e mandava eu pegar. Era muito bruta. Não voltei mais lá.”
A mãe de Carmem lavava as roupas de Maria Antonieta e soube que ela precisava de uma babá para cuidar da filha de um ano. Foi a oportunidade que Carmem precisava. Se tornou funcionária dos Caleiro e não saiu mais. “Antes fazia a faxina pesada com outra ajudante, hoje faço a lida da casa o dia inteiro, mas coisas mais leves por causa da minha idade. Sirvo mais de companhia para minha patroa, que fez 89 anos nesta semana.” Carmem mora com duas irmãs e dorme na casa da patroa aos sábados. “Enquanto puder trabalhar, vou continuar aqui.”
Maria Antonieta diz que a relação das duas não é de patroa e empregada. “Ela entrou aqui muito nova e eu ensinei como fazer o serviço. Se saio, ela fica responsável pela minha casa. Nós nos tornamos grandes amigas.”
Maria Zilda Pereira Alves, 58, também estreou nos afazeres domésticos como profissional muito nova. Tinha 14 anos. Nascida na roça, diz que encontrou na profissão de doméstica um meio para ajudar a sustentar a casa. É empregada da mesma família há 45 anos. Já trabalhou para três gerações. “Fiz maria chiquinha no cabelo da Vera Lúcia e hoje ela é minha patroa. Sempre brinco que carreguei ela no colo e hoje limpo a casa dela”, disse, sorridente. Maria Zilda, chamada por todos de Mariazinha, trabalha em quatro casas - na da mãe e na das três filhas - em esquema de rodízio. Além das tarefas domésticas, cuida também dos cachorros Mel, Tutu e Sasha.
A relação entre Mariazinha e os patrões é próxima. Quando se casou, teve espaço para morar com o marido, e depois o filho, na casa da patroa. “A dona Dirce faz para mim coisas que só mãe faz. Quando ganhei meu filho, foi na casa dela que fiquei. Hoje, ele está na faculdade e a família toda está me ajudando a pagar a mensalidade de R$ 600 do curso dele de direito.”
Mariazinha também diz que se sente e é tratada como uma pessoa da família. Sofreu com a morte dos patriarcas como se fossem parentes seus. “Fiquei muito tempo com o senhor Cirilinho e a dona Luzia e, quando eles morreram, foi muito triste”, relembra.
O orgulho não é apenas pela relação entre eles, mas pelas conquistas com a profissão. Foi como doméstica que conseguiu comprar um terreno e construir uma casa de sete cômodos no Jardim Aeroporto III. “Era meu sonho ter a casa própria e devagarinho fui construindo. Já vai fazer 20 anos que moro lá.”
Mariazinha se aposentou há sete anos e sobrevive com o salário de R$ 1 mil, além da aposentadoria. Pretende continuar na ativa. “Trabalho porque preciso e gosto. Não tive outras oportunidades, mas essa que apareceu na minha vida foi ótima. Sou muito feliz com eles.”
NO SANGUE
A extrovertida Cleusa Helena Raposo Lourenço, 43, é empregada doméstica há trinta anos. Já trabalhou em quatro casas diferentes, mas faz 17 anos que é contratada da bordadeira Augusta Paludetto, 94. Trabalha três vezes por semana. “Lavo, passo, limpo a casa, busco marmita, faço compras e companhia. Eu sinto como se eles fossem realmente minha família. Os netos dela são como se fossem meus.”
Depois que se casou, Cleusa até arriscou outra profissão. Trabalhou três anos numa fábrica de calçados em Franca, mas não gostou da experiência e voltou a ser doméstica. “Não aguentei ficar fechada. Também gosto dessa profissão.”
Com o salário conseguiu realizar sonhos comuns a tantas pessoas: comprou uma casa para chamar de sua e um carro. “Hoje trabalho três dias por semana e ganho um salário mínimo. Minha renda já foi maior, mas sou muito econômica, foco em algo e faço. Foi assim com o carro e a casa.”
A NOVELA
Para Carmem, Maria Zilda e Cleusa a novela Cheias de Charme mostra uma realidade bem diferente da que vivem com os patrões. “Na novela, judiam demais das empregadas”, disse Carmem.
Já Cleusa acha importante a profissão ser abordada na televisão. “As pessoas, às vezes, acham que empregada não é gente. Graças a Deus, nunca tive problema com agressão nas casas onde trabalhei. Sempre fiz as refeições junto com os patrões. Sempre tive em mente que preciso deles. Se sair daqui, vou ter que arrumar outro emprego porque é o que eu sei fazer e o que eu gosto.”
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