Brasília foi construída no planalto central, bem no meio do país. Como ficamos por séculos beirando as praias feito caranguejos, ela acabou ficando bem distante dos principais centros econômicos e demográficos do país, ainda hoje inclusive. Mas essa distância não se deu apenas em termos de quilômetros. Curiosamente, expressou-se também na forma semântica, pois é difícil para o cidadão comum compreender o linguajar político que se estabeleceu na capital do país.
A instalação da CPI para apurar as irregularidades do contraventor Carlinhos Cachoeira e suas relações com membros do Congresso, do Executivo e do Judiciário enseja uma excelente oportunidade de reflexão sobre esse tema. A começar pela própria finalidade da CPI, ou seja, a de apurar algo que já foi bastante apurado pela Polícia Federal, que obviamente tem muito mais competência que os congressistas para esse tipo de investigação. Nesse sentido, o verbo apurar parece ter perdido o sentido que tem para nós, simples mortais.
Ao longo dos anos, talvez, em função da secura do clima em Brasília, o significado do verbo apurar tenha se enrijecido, transformando-se em enrolar, um sentido que boa parte da população, por falta de melhor definição, acabou traduzindo por ‘pizza’, uma metáfora que explica apenas o final feliz com que todas as CPIs tendem a acabar.
Outra expressão interessante utilizada por nossos parlamentares, mas que para nós causa certa estranheza, é ‘vou escolher meus pitbulls’, utilizada pelo líder do DEM (Democratas) ACM Neto, quando se referiu à escolha de parlamentares de seu partido para compor a CPI. Para o cidadão comum, é difícil compreender a comparação, pois para ele o Congresso é a principal instância do diálogo sério e objetivo, que deve prevalecer sobre todo e qualquer interesse particular.
Nesse sentido, se tivesse que fazer uma comparação com a raça canina, sem nenhuma intenção de ofensa ao melhor amigo do homem, o cidadão comum escolheria o labrador, um cão mais dócil e mais afeito ao diálogo. A ferocidade do pitbull, nesse caso da semântica política de Brasília, acaba deixando algumas reticências na mente do homem comum.
Mas o mais surpreendente mesmo, o mais incompreensível nessa discrepância política, é a palavra ‘experientes’, que foi aplicada para adjetivar os membros de todos os partidos que participarão dessa CPI. Para a língua portuguesa comum, o adjetivo ‘experientes’ deixa entrever a idéia de pessoas que por já terem passado várias vezes pela mesma situação aprenderam a lidar com ela de forma eficaz. Nesse sentido, estariam entre os melhores para fazer determinada coisa.
Mas é justamente aí que a nossa compreensão resulta difícil. Se nenhuma CPI até hoje criada chegou a qualquer resultado prático para o bem do interesse público, sobra-nos uma pergunta que com certeza, pela diferença semântica que existe entre nós e nossos políticos, eles não iriam compreender.
Experiência em quê? E para quê?
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.