Lei e legado são dois fatores intimamente ligados à vida em sociedade. Em princípio, um fato regula o outro. No entanto, as contingências divergem costumeiramente por caminhos diferentes daqueles que deveriam ser trilhados pela maioria.
Poucos dias atrás a estatal encarregada pelo abastecimento de água na cidade promoveu um passeio a cavalo pelas trilhas das matas ciliares do Rio Canoas. Dentre as diversas metas do evento, uma delas tinha por objetivo recolher o lixo inorgânico encontrado durante a cavalgada.
Teoria pode não levar à prática. Cavalgar costuma ser um ato que ocupa as duas mãos do praticante. A pessoa divaga em pensamentos ou conversa com os companheiros durante o passeio, buscando um lazer natural. Por si só, uma cavalgada não condiz com muletas psicológicas, como o uso de tabaco ou bebida alcoólica.
E não é que os cavaleiros, pretensamente ambientalistas, em vez de recolher restos de plásticos ou metais, deixaram um rastro de latinhas vazias e guimbas pelas devastadas margens do Rio Canoas. Será que durante o percurso alguns dos participantes conseguiram tomar consciência do abandono da mata ciliar ou então perceberam o baixo nível das águas, para esta época do ano?
Franca tem dois rios de porte médio para baixo em sua região. Ambos se localizam a uma distância média de 20 km da cidade. A nascente de cada um deles fica um pouco antes de Ibiraci. Devido às condições do relevo, o fio inicial do Rio Canoas se direciona para o oeste e as água iniciais do que será o Rio Sapucaí Mirim tomam rumo leste.
No fim, os dois rios deságuam no Rio Grande. O Canoas tem um percurso bem menor. As matas de suas margens não estão tão devastadas, se comparadas às do Sapucaízinho. Primeiro, por serem mais curtas. Depois, a exploração agrícola que circunda o seu trajeto não demanda tanto desmatamento.
Já o Rio Sapucaízinho sobrevive em meio a um verdadeiro atentado ecológico. Ao menos nos contrafortes da serra de Ibiraci ainda se pode ver uma parca vegetação reservada pelos pequenos produtores rurais como APP (Área de Preservação Permanente). Entretanto, depois que as águas se juntam ao Rio Santa Bárbara, depois de Patrocínio Paulista, para formar o embrião do Rio Sapucaí Mirim, a plantação de cana muitas vezes costuma ser o último vestígio vegetal antes do leito.
Água sem APP acaba ficando à margem, fica fora do rio. A longo prazo, o precioso líquido chega ao fim. Um rio só existe pela simples existência de suas margens ciliadas. Sem elas, as águas se espalham e entram pela terra. Isso, se não forem evaporadas antes pelo sol.
Enquanto isso, a votação final do novo Código Florestal está marcada para o dia 24. Faz mais de dez anos que o assunto está em discussão. Mesmo assim, alguns parlamentares querem adiar um pouco mais. Para eles, apreciar e votar a urgente modificação da lei sobre o consumo de bebidas em campos de futebol, durante a Copa de 2014, tem mais valia.
Antônio Araújo
Articulista e professor - tonin.palavras@uol.com.br
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