É assustador observar o prazer que sentimos quando vemos alguém sofrer pelas consequências nefastas dos seus atos. Chamamos isso de justiça. Há uma certa felicidade camuflada de ética que se delicia ao ver o outro castigado por causa de seu próprio comportamento. E não estou falando dos grandes crimes hediondos, os quais, sem dúvida, necessitam de um julgamento da sociedade. Falo do nosso dia a dia, das pessoas que convivem conosco e com as quais trocamos experiências. Sentimos uma alegria que não sorri com todo o rosto, mas apenas com um canto da boca, quando podemos dizer: Eu avisei! Eu falei tanto, mas... É a felicidade de ver os maus castigados.
São vários os sentimentos que desfilam nesse momento. Primeiro, um certo ar de superioridade, pois eu já sabia que aquilo não poderia ser feito daquela forma, mas você não me ouviu. Então, agora, vê se aprende! Em segundo lugar, aparece o conservador rabugento usando uma metralhadora giratória defendendo crenças intocáveis. E, finalmente, lá estou eu como um farol intelectual e moral capaz de iluminar qualquer escuridão.
Às vezes, alguns fatos também nos deixam felizes, não necessariamente por causa do infortúnio do outro, mas gostamos de sentir-nos aliviados por não sermos nós, a vítima. É uma outra aparência da impiedade.
E há ainda outros agravantes que são trazidos pelo contexto presente. Recentemente, vimos o caso de Thor, filho do milionário Eike Batista que atropelou e matou um ciclista. Nossa primeira reação é torcer para que o menino rico seja castigado. Não estamos muito preocupados com o anônimo ciclista, mas queremos punir aquele que já tem tudo. Os ricos e bem sucedidos ficam também na mira de nossa crueldade. É como se sentíssemos vingados por não termos tudo que aquele outro tem.
Penso que é muito difícil nos observarmos nesse ângulo. Estaremos sempre nos justificando e, creio eu, que poucos, bem poucos mesmo, têm a coragem de admitir essa atitude. A fuga desse olhar que nos despe e mostra nossa nudez humana não nos favorece. É preciso olhar duramente, de frente, para as questões que impedem nosso crescimento espiritual. Não é olhar para desmerecer, mas para conhecer a Sombra que nos habita. É, sim, uma sombra maiúscula, pois tem força de dominar, de enganar, de ser julgadora e impiedosa. Não temos que destruí-la. Ela é parte de nós. Não temos que ignorá-la. Ela existe. Temos apenas que aprender a conversar com ela. Trazê-la para a luz, para a consciência. Não há sombra que resista à luz.
Penso que na nossa caminhada por essa vida só devemos mudar se for para melhorar. É esse o nosso destino e quanto mais demorarmos, mais caminhos teremos que percorrer. Assim, trazendo o observador para enxergar o orgulho, a prepotência, a inveja e o nosso lado impiedoso, poderemos dar um passo a mais. Constatar que somos habitados por todos esses sentimentos não nos enfraquece. Por outro lado, o que nos fortalece é a capacidade de não endurecer o coração. Para ser doce e terno, é preciso antes ter reconhecido os tropeços sofridos de nossa alma. É preciso ter feito a passagem de um lado a outro.
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