Thomaz Tardivo comanda a malhação de Judas há 56 anos


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Thomaz Tardivo diz que nunca pensou em parar com a queima do Judas nem com o presépio que monta no final do ano
Thomaz Tardivo diz que nunca pensou em parar com a queima do Judas nem com o presépio que monta no final do ano

Na Franca dos anos 30, o menino Thomaz Tardivo não se importava muito com a festa da mallhação do Judas, introduzida na América Latina pelos colonizadores espanhóis e portugueses. Mas, logo o ato de malhar ou queimar o Judas tornou-se um divertimento no Sábado de Aleluia, sobretudo para as crianças. No Rio de Janeiro setecentista, os Judas apareciam conjugados com outros demônios. Cheios de fogos de artifícios no ventre, ardiam em uma apoteose de cores que o povo aplaudia.

O ato virou tradição em Franca também, mas nunca houve grandes espetáculos. Até que Thomaz “tomasse gosto pra coisa”. Francano de nascimento, esse músico amador e filho de trabalhadores descobriu a malhação do Judas aos 26 anos, quando já havia deixado o trabalho de marceneiro e tinha voltado a Franca para “tocar” um bar que comprara em sociedade com seu pai. Era o Bar São João, onde hoje é a loja de tintas Mogiana, ao lado da praça da Estação.

“A idéia surgiu por acaso. Estávamos tomando uma cervejinha. Éramos vários amigos. De repente alguém falou: ‘vamos fazer um Judas’?”, conta Thomaz, 83 anos, que completou neste ano 56 anos ininterruptos de malhação do Judas.

Como é costume acontecer em todas as rodas de amigos, as idéias começaram a surgir. Um lembrou que poderia trazer uma cabaça do sítio para fazer a cabeça. Outro sugeriu que a loja Teixeira poderia ajudar com os fogos de artifício. Outro garantiu que arrumaria as roupas e assim foi.

Em pouco tempo, o Judas estava pronto. Ficou exposto durante a semana no bar de Thomaz, que era bastante movimentado. Durante o dia por conta do movimento dos trens, que naquela época era o principal meio de transporte de pessoas e cargas. E à noite, em função da praça, que naquela época ainda era um espaço muito apreciado pelas crianças e pelas famílias.

Os amigos combinaram que iriam queimá-lo no Sábado de Aleluia, como mandava a tradição, ao meio-dia, horário de movimento mais intenso. O local seria a própria praça.

“Quando chegou o dia, fincamos um ferro na grama, amarramos o Judas e o enchemos de bombas. Quando começou a explodir, foi muito engraçado. Todo mundo gostou”, lembra Thomaz.

Segundo ele, a molecada delirou. Havia muita gente e a diversão foi grande. Como eles colocaram uma bomba mais forte dentro da cabaça, quando ela explodiu a cabeça do Judas voou sobre a praça e foi cair nos trilhos da Mogiana, para delírio da multidão.

Mesmo sem perceber, essa primeira experiência marcou para sempre a vida de Thomaz Tardivo. Nesse longínquo ano de 1956, o saxofonista e sanfoneiro que tocava em várias orquestras de Franca ainda não sabia que estava começando uma tradição.

Durante 56 anos, ele dividiu seu trabalho profissional, suas responsabilidades de pai de família e seu hobby musical com a organização desse evento que dá um toque especial na Páscoa francana.

No ano seguinte à estréia, em função do sucesso da queima anterior, os amigos resolveram construir um novo Judas. Novamente o Bar São João foi o ponto de encontro e o local escolhido para a exposição do Judas. E novamente Thomaz foi o encarregado de organizar tudo.

Por cerca de dez anos, Thomaz repetiu o evento na praça da Estação. Posteriormente, em função do fechamento de seu bar, mudou a festa para a rua Voluntários da Franca, alguns quarteirões abaixo da praça, ao lado de seu novo bar, o Minerva.

O evento foi realizado lá mais uns 16 anos, quando finalmente, no começo dos anos 80, mudou para o local atual, na frente do Clube dos Bagres, onde Thomaz foi trabalhar e onde ainda atua como funcionário e conselheiro.

“Eu tenho muito orgulho de tudo que fiz. As pessoas me acolhem bem e acho que entendem que isso é um bom pedaço de minha vida”, diz um emocionado Thomaz.

Durante todos os 56 anos, ele afirma que nunca pensou em parar, nem com a malhação e nem com o presépio, outra tradição que cultiva e que é ainda mais antiga que a queima do Judas.

“São as coisas mais importantes da minha vida. Não tenho como parar. Vou até quando Deus me der forças”, afirma.

DOENÇA
No final de 2010, Thomaz ficou muito doente. Seu enfisema pulmonar se tornou uma pneumonia e ele ficou 15 dias na UTI. Sua família defendia, então, que ele parasse com tudo, incluindo as “atividades extras”, mas ele resistiu. Foi se recuperando devagar e retomando o trabalho. Passado o Carnaval de 2011, lá estava ele novamente colocando a mão na massa para criar um novo Judas.

“Cheguei a chorar na frente do médico, o dr. Renato. Perguntei se teria que abandonar meu Judas e meu presépio, mas ele me garantiu que eu iria voltar”, lembra.

Durante muito tempo, os Judas de Thomaz não “homenagearam” ninguém. Foi só no começo dos anos 90, por sugestão do amigo Verzola, que o comerciante adotou a estratégia de dar nome de políticos ao boneco..

Sem nenhuma filiação política e sem ter que dar satisfação para ninguém, Thomaz diz que pôde brincar tranquilamente com essa questão. Prestou “homenagem”, então, a senadores, deputados, presidentes e outras personalidades que conseguiram se destacar negativamente no cenário nacional.

“Nunca tive problemas para escolher, pois o que não falta nesse país é político corrupto. Em qualquer ano.”

Neste ano, Thomaz resolveu mexer com os ministros. Como vários já saíram do governo por suspeita de corrupção, ele entendeu que um deles seria um Judas bastante representativo.

“Escolhi o Palocci [Antonio Palocci Filho, ex-ministro-chefe da Casa Civil de Dilma Rousseff] porque ele foi o primeiro. Se não traiu Deus, traiu o povo brasileiro”, brinca Thomaz.

Outra brincadeira interessante, também presente na tradição brasileira, é a leitura do “testamento” de Judas, que é colocado no bolso do boneco. Um pouco antes de queimá-lo, alguém o lê para o público presente. Geralmente, o testamento é uma sátira das pessoas e coisas locais, com humor oportuno para aqueles que podem identificar as figuras ali descritas.

Neste ano, a cueca de Palocci foi para o Zé Rasteiro, da Rádio Imperador. A meia ficou com o Hélio, do Clube dos Bagres. O colar foi para a colunista Patrícia, do Comércio da Franca.

“E a forca do Palocci vai para todos os políticos brasileiros”, completa Thomaz.

Apesar desses 57 anos de tradição, de tantos Judas explodidos e de tanta alegria repartida com gerações e gerações de crianças francanas, Thomaz acha que dificilmente alguém dará continuidade ao seu trabalho.

Seus quatro filhos e seus cinco netos seguiram por outros caminhos e ninguém se apresentou com interesse em herdar o cargo de “malhador oficial do Judas de Franca”.

“Eu fico triste, mas o que eu posso fazer? As coisas mudaram. A Páscoa só não acabou por causa do chocolate, assim como o Natal não acabou por conta do comércio. Parece que as tradições estão acabando”, lamenta.

De qualquer forma, ele garante que todos esses anos valeram a pena. “A malhação do Judas foi sempre uma grande emoção. Ver aquelas crianças vibrarem foi sempre muito compensador.”

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