Abril amanheceu com uma beleza despudorada, sem se preocupar se estaria a ofender alguém. Impossível não se maravilhar a cada manhã. Uma claridade já diferente nos obriga aos óculos de sol - fica aquela dúvida sobre suportar a atrevida claridade e ver melhor ou o conforto dos óculos. O céu francano, tema de poetas, está mais azul, mais límpido. Pode ser bairrismo besta, mas o céu de Franca é o mais bonito. Nem o Rio de Janeiro, com belezas cantadas em prosa e verso, tem céu tão lindo. Minha irmã Lelê, que aniversaria em abril, todas as manhãs se sai com o bordão: “Ai, ai esse mês de Lelê é realmente lindo, realmente está lindo...”
Não menos lindo foi o domingo passado, considerado como de Ramos pelos católicos. A caminho das minhas compras dominicais matinais, deparo-me com vários ramos acenando aos céus, a maioria deles constituídos de pedaços da palmeira Areca, a roubarem a luz do sol e se fazerem definitivamente amarelos. Um cântico suave embalava o sono eterno daqueles que já não professam nenhuma fé e, embora muito pudessem esclarecer, preferem contribuir com um silêncio inexpugnável. A praça do Cemitério da Saudade se fez de palco à Missa de Ramos de alguma igreja. Fiquei tentada a sair do carro e pedir um ramo pra mim, independentemente dos significados que desconheço em grande parte, mas, o abril, o cântico, a plateia de mortos ao fundo estava plena de significados e justificavam por si só os ramos de Areca.
Chego à feira e escuto alguém dizer que a sua penitência durante a quaresma terminara naquele Domingo de Ramos, segundo o seu entendimento. Fiquei a pensar no porquê disso, uma vez que o Domingo de Ramos marca justamente a entrada de Jesus Cristo em Jerusalém e o prelúdio de suas dores e humilhações...
Assim sendo, uns gozam as delícias e excesso da Páscoa antes dela. Seja como for, durante toda a semana disputei lugar com donas de casa, mulheres ativas empunhando listas de finos produtos para receitas incrementadas a serem preparadas e comidas na celebração da Páscoa em família. E vendo tanta diversidade quis saber quais seriam os pratos que simbolizariam a Páscoa: o coelho é um deles, por sua grande fecundidade, comparado à Igreja, que seria fecunda em sua missão de propagar as “palavras de Deus aos povos de todo o mundo”.
O cordeiro. O mais antigo símbolo pascoal, a bem da verdade um símbolo requentado da páscoa judaica: a Pessach. Significa a aliança feita entre Deus e o povo judeu na libertação deles dos cativeiros egípcios.
Pães ázimos: espécie de pão assado sem fermento, constituído exclusivamente de farinha e sal. Fora da Páscoa, a tradição judaica permite que se coloquem outros ingredientes, como azeite, ovos e açúcar. O pão deve ser amassado e posto para assar em menos de 18 minutos para que a massa não fermente. A massa deve ficar muito fina, quase transparente.
Os ovos, claro. Inicialmente de galinha mesmo, cozidos, pintados, ocos. Várias foram as formas de representação dos ovos para a festa de Páscoa. Nas culturas pagãs, o ovo já trazia a ideia do começo da vida. E era comum presentear os amigos com ovos para se desejar boa sorte.
A substituição dos ovos de galinha, cozidos e pintados, por ovos de chocolate, pode ser explicada pela proibição do consumo de carne animal e dos seus derivados, por alguns cristãos durante o período da quaresma. Mas a versão mais aceita é a comercial mesmo: o surgimento da indústria do chocolate, em 1830, na Inglaterra, fez o consumo de ovos de chocolate aumentar.
Não vi ninguém comprando coelhos, cordeiros, nem imagino alguém produzindo pães ázimos. Elegemos símbolo quase único: o ovo de chocolate e algumas colombas pascoal. Ao que se refere ao estômago, para alguns, a Páscoa será também uma oportunidade de professar a fé em uma alimentação melhor, para uma vida melhor. Outros, sem penitência ou culpa, preferirão se entregar com prazer àquilo de que realmente gostam. Com promessa de tempo bom, uma Feliz Páscoa a todos.
Dica da semana
Ao contrário do que se pensa, a carne de porco é de excelente qualidade e muito nutritiva. Mas não pode ser consumida crua ou malpassada. Daí o preconceito que muita gente ainda tem com esse alimento.
Essa carne deve ser consumida sempre preparada, seja pela ação do calor ou da salmoura. Quando cozida, deve sempre atingir a temperatura interna de 75º C. Um termômetro culinário pode esclarecer essa dúvida.
O problema com a carne de porco é a possibilidade da presença da cisticercose (causada pela ingestão acidental dos ovos da Taenia sollium, que tem como hospedeiro intermediário os suínos), mas, por lei, no Brasil a carne de porco deve ser vendida congelada e com selo do SIF (Serviço de Inspeção Federal).
Não é recomendado o consumo de carne fresca sem o conhecimento da procedência, a não ser que o animal seja criado em estábulo, com alimentação controlada, acompanhamento de veterinário e abate correto.
Nutricionistas afirmam que a carne de porco tem atualmente um nível de colesterol semelhante às ou-tras carnes (bovinos e aves), sendo um alimento nutritivo e saboroso, muito equilibrado em sua composição e, que pela sua abundância em vitaminas e minerais, deveria ocupar um maior espaço na mesa do consumidor brasileiro.
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