Páscoa do coelho, cordeiro, pão ou ovo?


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Surgimento da indústria do chocolote, em 1830, fez consumo de ovos aumentar
Surgimento da indústria do chocolote, em 1830, fez consumo de ovos aumentar

Abril amanheceu com uma beleza despudorada, sem se preocupar se estaria a ofender alguém. Impossível não se maravilhar a cada manhã. Uma claridade já diferente nos obriga aos óculos de sol - fica aquela dúvida sobre suportar a atrevida claridade e ver melhor ou o conforto dos óculos. O céu francano, tema de poetas, está mais azul, mais límpido. Pode ser bairrismo besta, mas o céu de Franca é o mais bonito. Nem o Rio de Janeiro, com belezas cantadas em prosa e verso, tem céu tão lindo. Minha irmã Lelê, que aniversaria em abril, todas as manhãs se sai com o bordão: “Ai, ai esse mês de Lelê é realmente lindo, realmente está lindo...”

Não menos lindo foi o domingo passado, considerado como de Ramos pelos católicos. A caminho das minhas compras dominicais matinais, deparo-me com vários ramos acenando aos céus, a maioria deles constituídos de pedaços da palmeira Areca, a roubarem a luz do sol e se fazerem definitivamente amarelos. Um cântico suave embalava o sono eterno daqueles que já não professam nenhuma fé e, embora muito pudessem esclarecer, preferem contribuir com um silêncio inexpugnável. A praça do Cemitério da Saudade se fez de palco à Missa de Ramos de alguma igreja. Fiquei tentada a sair do carro e pedir um ramo pra mim, independentemente dos significados que desconheço em grande parte, mas, o abril, o cântico, a plateia de mortos ao fundo estava plena de significados e justificavam por si só os ramos de Areca.

Chego à feira e escuto alguém dizer que a sua penitência durante a quaresma terminara naquele Domingo de Ramos, segundo o seu entendimento. Fiquei a pensar no porquê disso, uma vez que o Domingo de Ramos marca justamente a entrada de Jesus Cristo em Jerusalém e o prelúdio de suas dores e humilhações...

Assim sendo, uns gozam as delícias e excesso da Páscoa antes dela. Seja como for, durante toda a semana disputei lugar com donas de casa, mulheres ativas empunhando listas de finos produtos para receitas incrementadas a serem preparadas e comidas na celebração da Páscoa em família. E vendo tanta diversidade quis saber quais seriam os pratos que simbolizariam a Páscoa: o coelho é um deles, por sua grande fecundidade, comparado à Igreja, que seria fecunda em sua missão de propagar as “palavras de Deus aos povos de todo o mundo”.

O cordeiro. O mais antigo símbolo pascoal, a bem da verdade um símbolo requentado da páscoa judaica: a Pessach. Significa a aliança feita entre Deus e o povo judeu na libertação deles dos cativeiros egípcios.

Pães ázimos: espécie de pão assado sem fermento, constituído exclusivamente de farinha e sal. Fora da Páscoa, a tradição judaica permite que se coloquem outros ingredientes, como azeite, ovos e açúcar. O pão deve ser amassado e posto para assar em menos de 18 minutos para que a massa não fermente. A massa deve ficar muito fina, quase transparente.

Os ovos, claro. Inicialmente de galinha mesmo, cozidos, pintados, ocos. Várias foram as formas de representação dos ovos para a festa de Páscoa. Nas culturas pagãs, o ovo já trazia a ideia do começo da vida. E era comum presentear os amigos com ovos para se desejar boa sorte.

A substituição dos ovos de galinha, cozidos e pintados, por ovos de chocolate, pode ser explicada pela proibição do consumo de carne animal e dos seus derivados, por alguns cristãos durante o período da quaresma. Mas a versão mais aceita é a comercial mesmo: o surgimento da indústria do chocolate, em 1830, na Inglaterra, fez o consumo de ovos de chocolate aumentar.

Não vi ninguém comprando coelhos, cordeiros, nem imagino alguém produzindo pães ázimos. Elegemos símbolo quase único: o ovo de chocolate e algumas colombas pascoal. Ao que se refere ao estômago, para alguns, a Páscoa será também uma oportunidade de professar a fé em uma alimentação melhor, para uma vida melhor. Outros, sem penitência ou culpa, preferirão se entregar com prazer àquilo de que realmente gostam. Com promessa de tempo bom, uma Feliz Páscoa a todos.


Dica da semana

Ao contrário do que se pensa, a carne de porco é de excelente qualidade e muito nutritiva. Mas não pode ser consumida crua ou malpassada. Daí o preconceito que muita gente ainda tem com esse alimento.

Essa carne deve ser consumida sempre preparada, seja pela ação do calor ou da salmoura. Quando cozida, deve sempre atingir a temperatura interna de 75º C. Um termômetro culinário pode esclarecer essa dúvida.

O problema com a carne de porco é a possibilidade da presença da cisticercose (causada pela ingestão acidental dos ovos da Taenia sollium, que tem como hospedeiro intermediário os suínos), mas, por lei, no Brasil a carne de porco deve ser vendida congelada e com selo do SIF (Serviço de Inspeção Federal).

Não é recomendado o consumo de carne fresca sem o conhecimento da procedência, a não ser que o animal seja criado em estábulo, com alimentação controlada, acompanhamento de veterinário e abate correto.

Nutricionistas afirmam que a carne de porco tem atualmente um nível de colesterol semelhante às ou-tras carnes (bovinos e aves), sendo um alimento nutritivo e saboroso, muito equilibrado em sua composição e, que pela sua abundância em vitaminas e minerais, deveria ocupar um maior espaço na mesa do consumidor brasileiro.

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