Metade de um ano. Exatos 6 meses. Esse é o tempo que falta para chegar as próximas eleições. Daqui para frente, a caça aos votos está instalada em todos os lugares. Como num passe de mágica, o eleitor passou a ser valorizado. Sua voz agora tem valor. Os pré-candidatos ao cargo de prefeito ou vereador param na rua somente para ouvir o cidadão comum.
Antes, o negócio (ou seria o ócio?) era diferente. Qualquer vereador da atual legislatura passava pelos eleitores na rua e nem dava muita bola. Se sentisse que estava sendo reconhecido, quando muito, fazia um meneio com a cabeça.
O gesto servia mais para dizer que ele sabia que havia sido identificado, do que para simbolizar um cumprimento descomprometido.
Agora, a coisa mudou. Caso o vereador não esteja andando a pé, ele para (não tem jeito. Parêntesis se faz necessário para esclarecer que se trata de forma do verbo ‘parar’. Quanto a andar a pé, nada de pensar em redundância, pois se pode também andar em veículos) o carro para pegar na mão de conhecido ou desconhecido, que acha que o conhece.
Na outra ponta de candidaturas, os secretários municipais mudaram da água para o vinho. Aliás, o ditado soa meio invertido, porque o líquido aquoso se caracteriza pela suavidade. No entanto, desde o início da administração, eles eram totalmente azedos. Cada um ficava em sua sala com cara de poucos amigos. Nada de estender a mão para algum munícipe que lhes procurasse para resolver problema relativo às suas pastas.
A época de sorrisos está em pleno vigor. A secura foi colocada de lado. Para acompanhar essas novas e forçadas fisionomias, a vestimenta também se modificou. Um estilo despojado combina mais. Afinal, ficar rindo à toa não combina com terno, camisa social ou blazer. Necessário se torna apelar para a velha roupa colorida, bem de acordo com os costumes do eleitorado.
Pelo menos por um semestre a solidariedade e a gentileza se irmanam no cotidiano. Atualmente, candidato a um cargo eletivo dá até carona para desconhecido em seu carro pessoal.
Dia desses, um ex-futuro postulante a uma candidatura parou diante do menor aceno em uma das rotatórias de saída da cidade. Ao saber que o destino do pedinte de transporte gratuito era diferente do seu, mudou a rota só para levar o carona.
Tal atitude recebe condenação da área de segurança pública. O ato de dar carona para desconhecido pode resultar em assalto. Em caso contrário, o candidato corre o risco de nem ser reconhecido. Assim, se quem ganhou a carona não sabe da sua condição de postulante a cargo eleitoral, seu gesto humanitário se torna inútil. O favor não retorna em forma de voto.
Numa outra jogada, se pedir o voto, aí é que não ganha mesmo. O marketing eleitoral aconselha um pedido sutil, de maneira indireta. De preferência sem muito sorriso. A não ser que o candidato viva mostrando os dentes em qualquer época. Ficar sério agora não pega bem.
Antônio Araújo
Articulista e professor - tonin.palavras@uol.com.br
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