‘Como em vários outros negócios, na saúde, a tendência é a fusão ’


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Missão - À frente da Unimed, Otto César Barbosa Jr. terá o desafio de liderar 318 médicos e 800 funcionários que atendem cerca de 75 mil clientes
Missão - À frente da Unimed, Otto César Barbosa Jr. terá o desafio de liderar 318 médicos e 800 funcionários que atendem cerca de 75 mil clientes

Otto César Barbosa Júnior é francano de nascimento. Graduou-se em medicina, em 1987, na antiga Faculdade de Uberaba, hoje transformada na Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Fez residência nessa mesma instituição e especializou-se em urologia.

Em 1990, retornou a Franca e logo entrou para o quadro de médicos da Unimed. Durante mais de uma década, trabalhou como cooperado e vivenciou uma gestão complicada e pouco profissionalizada, como acontecia com várias cooperativas médicas do Brasil. Com o poder dividido em grupos que nem sempre apresentavam interesses convergentes, a administração da empresa foi ficando cada vez mais comprometida, ameaçando a sua própria existência.

Em 2004, a Unimed experimentou um “choque de gestão”, como Otto gosta de frisar. Nesse mesmo ano, ele entrou para a diretoria da instituição e assumiu a responsabilidade pela área comercial, função que desempenhou nos últimos 8 anos. Agora, em 2012, assumiu o desafio de presidir a empresa e dar continuidade ao trabalho bem sucedido que vem sendo desenvolvido desde 2004.

A frente do primeiro mandato de 4 anos, Otto terá a incumbência de liderar 318 médicos e 800 funcionários que atendem cerca de 75 mil clientes. Para conduzi-los durante esse período e manter o mesmo ritmo de crescimento que a empresa experimentou nos últimos anos, ele sabe que precisará enfrentar inúmeros desafios.

Atuando em uma área cada vez mais complexa e competitiva, que demanda altíssimos investimentos tanto para manter a qualidade dos serviços quanto para buscar a modernização e a atualização, ele tem consciência de que precisará encontrar uma maneira de continuar expandindo a organização, pois do contrário poderá ser encampado por outro grande grupo ou mesmo ‘ficar pelo caminho’, deixando de administrar planos de saúde. “A tendência é a fusão e a busca por escala. Como em vários outros negócios, a saúde de qualidade também demanda escala para poder baratear os custos dos serviços”, acrescenta Otto.

Entre os inúmeros desafios, o novo presidente terá que conduzir a possível fusão com o Hospital Regional, obviamente em conjunto com o presidente desta instituição. Apesar de praticamente certa na teoria, não será tão simples na prática. Como é comum acontecer em qualquer processo de fusão, lidar com as resistências e com os conflitos que surgirão do entrechoque de culturas organizacionais diferentes não será tarefa fácil. Nessa entrevista, Otto conta um pouco sobre seus objetivos para os próximos quatro anos.

Comércio - A Unimed passou por um choque de gestão em 2004. Como era a gestão antes?
Otto Barbosa Júnior -
Antes a Unimed não tinha gestão profissionalizada. Mas isso era comum naquela época. Eram os próprios médicos que tocavam o negócio e sem experiência na área administrativa. E aqui, para piorar, havia dois grupos de médicos que se revezavam no poder. Quando um administrava, o outro fazia oposição. E uma oposição sistemática, que atrapalhava o desenvolvimento da empresa. Não havia continuidade e isso dificultava a implantação de qualquer projeto de médio ou longo prazo. Essas diferenças acabaram nos levando a uma situação muito complicada na época, tanto do ponto de vista administrativo como financeiro. Em 2004, resolvemos sentar para conversar, pois a situação difícil tinha se tornado um inimigo comum para todos. Então, unimos forças. Tiramos os melhores valores desses dois grupos em termos de capacidade e habilidade administrativa. Contratamos uma consultoria de Belo Horizonte que utiliza a mesma metodologia do Vicente Falconi, um dos maiores nomes da gestão no Brasil, e começamos a mudar tudo. Obviamente, isso tudo não foi tão simples assim. Demandou tempo, paciência e muito esforço de todos.

Comércio - O senhor acha que a Unimed de Franca teria fechado se não fosse esse choque de gestão?
Otto -
É difícil fazer essa suposição, mas acredito que não teríamos sobrevivido sem essas mudanças. Se em outras áreas da economia não há mais espaço para amadores, imagine na saúde, um setor complexo, caro e bastante delicado.

Comércio - E o que mudou na gestão?
Otto -
Basicamente, profissionalizamos a gestão. Contratamos profissionais de carreira para gerenciar todos os setores da empresa, dando-lhes autonomia para gerir seus respectivos setores. Ao mesmo tempo, todos os membros da diretoria fizeram algum curso ou especialização nas várias especialidades da área administrativa, ou seja, marketing, finanças, recursos humanos, planejamento estratégico, etc. Com o tempo, conseguimos equalizar as diferenças, começar a falar a mesma língua e colocar em funcionamento todos os pressupostos das modernas abordagens de gestão. Hoje, nossos sistemas são todos informatizados. Fazemos análise dos ambientes interno e externo, elaboramos o planejamento estratégico anual, fazemos orçamento para tudo, verificamos nossas possibilidades financeiras, colocamos metas para todos os setores e buscamos controlar tudo isso por meio de modernas técnicas de gestão.

Comércio - No mundo atual da gestão, bastante complexo e competitivo, não é difícil para um médico entrar nesse universo sem uma formação adequada?
Otto -
Já foi, mas como os tempos eram outros, acho que nós nem percebíamos. Hoje isso já não acontece. Atualmente, existem normativas da ANS (Agência Nacional de Saúde) que exigem experiência administrativa e de mercado para médicos que venham a se tornar diretores de empresas da área de saúde. Na diretoria da Unimed, não há nenhum médico que não tenha MBA ou alguma especialização nas várias áreas da gestão. De qualquer forma, como já disse, nosso cotidiano administrativo está nas mãos de profissionais de carreira.

Comércio - Recentemente foi anunciada uma possível fusão entre a Unimed e o Hospital Regional. Em que estágio está esse processo?
Otto -
Estamos em fase de conversação. Há algumas resistências de ambos os lados, mas acredito que vamos vencê-las rapidamente. A maioria dos médicos sabe muito bem que a fusão é uma tendência. Há uns 10 anos, havia cerca de 2 mil grupos oferecendo serviços de saúde. Atualmente, esse número caiu pela metade e nos próximos 5 anos deverá cair para 500 grupos. O que está acontecendo com a área da saúde é o mesmo que já ocorreu com vários outros setores da economia, como bancos ou lojas de departamentos, por exemplo. Em função do alto custo e da necessidade de investimentos constantes, a busca de escala tornou-se imprescindível. O ideal é juntar forças, racionalizar o máximo possível a gestão e otimizar gastos e investimentos. Os dois grupos vão ganhar com isso e a maioria dos médicos sabe disso.

Comércio - Essas resistências poderiam estar relacionadas a alguma rixa entre esses dois grupos?
Otto -
Acredito que não. Podemos dizer que no passado houve sim certa rivalidade entre esses grupos. Cada um deles trabalhava em seu hospital e não havia muito contato. Porém, acredito que atualmente essas diferenças estejam totalmente superadas, pois os tempos mudaram e se nós não mudarmos nossa forma de pensar com certeza seremos atropelados por essas mudanças.

Comércio - E se essa fusão não der certo, o que a Unimed vai fazer?
Otto -
Não estamos vivendo em função da fusão. Se ela ocorrer, acreditamos que será bom para todos, para os médicos, para os clientes e para a cidade. Mas se ela não ocorrer, nós com certeza iremos encontrar outras formas de crescimento.

Comércio - O senhor disse que a fusão traria bons resultados para todos. Se ela acontecer, não haverá redução de alguns serviços, prejudicando os clientes desses planos de saúde e, talvez, alguns funcionários?
Otto -
Não acredito que haveria prejuízos nessa fusão, se ela vier a acontecer. Obviamente, haveria alguns ajustes que com certeza iriam impactar médicos, clientes e funcionários. Porém, tudo dependeria de estudos que precisariam ser feitos para que nós pudéssemos compreender melhor a nova demanda. Alguns serviços que hoje são oferecidos nos dois hospitais poderiam ser otimizados, o que não quer dizer que seriam oferecidos com menor qualidade e em menor escala de intensidade. Eles poderiam, inclusive, ser melhorados. No sentido inverso, e em função desses mesmos estudos, outros serviços poderiam ser criados. Além disso, com a união dos dois grupos e com o consequente ganho de escala, seria possível trazer para Franca equipamentos e tecnologia que os dois hospitais, separados, não teriam condições de trazer, pois nenhum dos dois teria clientes e recursos suficientes para bancar um investimento muito expressivo.

Comércio - Quais são os principais desafios de sua gestão?
Otto -
Presidir uma empresa como a Unimed é um desafio constante. Mas acredito que o mais importante é continuar crescendo, acompanhar o desenvolvimento tecnológico e manter a qualidade dos serviços. O Hospital São Joaquim é uma referência hoje em dia. Mais de 30% de nossos clientes já são particulares e de outros convênios. Recentemente, montamos um centro especializado em cardiologia e um dos mais modernos centros de hemodinâmica do país. Além disso, fomos acreditados pela ONA (Organização Nacional de Acreditação), um dos mais importantes avaliadores e certificadores da qualidade dos serviços de saúde e da área hospitalar. Conseguimos, inclusive, o nível 3 de certificação, o mais alto, que só foi conquistado por 25 hospitais em todo o país. Nossa operadora de planos de saúde também foi certificada com a ISO 9000 e essas certificações, obviamente, sofrerão auditoria regularmente. Precisamos manter esse nível de qualidade de todas as formas. E a melhor maneira de fazer isso é continuar crescendo, treinando nossos funcionários e investindo em tecnologia.

Comércio - E como o senhor vai fazer para equilibrar tudo isso com sua rotina de médico?
Otto -
Não vai ser fácil. Vão ser quatro anos bem corridos. Mas como a operação do negócio está nas mãos de profissionais de carreira, penso que será bem tranquilo conciliar as duas funções, como fazem todos os membros da diretoria, porque ninguém deixou de ser médico para se transformar em administrador. 

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