A esses que têm dons


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Estou de volta, renovado. As férias deste ano foram diferentes. Ganhei a estrada com mulher e filhos, algo que em anos anteriores, seja por impossibilidade de datas ou, compromissos assumidos, não pudemos fazer

Um período de descanso anual é essencial. Minhas atividades profissionais com jornalismo são profundamente estressantes. Somos, como sempre lembramos, contadores de histórias, mas o problema é que nem sempre as histórias são bonitas ou alegres. Neste mundo a cada dia mais estranho, o contrário tem sido quase praxe: quase tudo é triste e preocupante, mas há, felizmente, exceções.

Conversava, ontem, com o Secretário de Promoção Social de Franca, advogado Roberto Nunes Rocha e duas agentes sociais de sua pasta, em prosa também compartilhada pelo repórter fotográfico do GCN, Marcos Limonti, e pelo presidente da Associação de Imprensa, Rádio e Televisão de Franca, Antônio Carlos Fernandes, o Xaropinho, sobre resultados alcançados em Franca pelos programas de distribuição de renda social do Governo Federal, com ênfase no projeto “Famílias Acolhedoras”. Roberto explanava sobre o fato de Franca haver conseguido encontrar e sensibilizar 40 famílias, gente disposta a receber no seio de sua convivência mais íntima jovens de até 17 anos que são afastados de suas famílias de origem em razão de violência contra eles praticadas. Essa vitória tem atraído administradores de promoção social de todo o Brasil, que têm vindo a Franca para conhecer ‘a mágica’.

Coloquei-me a pensar nestas famílias. Que gente diferente é essa? O que as move a abrir mão da intimidade de seus lares ajustados para receber gente que precisa de apoio de todo tipo, especialmente quanto à raiva que desenvolvem do contexto familiar que as gera? De onde essa gente tira coragem? Disse-nos Roberto, a coordenadora do projeto e a psicóloga reforçando, que essas famílias de apoio permanecem com o “visitante” apenas pelo tempo necessário a que a família de origem seja trabalhada. Então, devolvem... E mais: se a justiça decidir que o jovem não deve mais voltar a conviver com sua origem, essas famílias “não são candidatas a adoção e nem contam com apoio se tentarem se candidatar”. Curvei-me.

Quem são esses que se despojam para receber “corpos estranhos”? Você, que me lê, abriria as portas de sua casa a seres que enfrentam desajustamentos sociais? Se você for sincero, deve ter respondido como fariam todos os considerados normais: “não”. Pois é. Tem gente por ai que por dom, talento, solidariedade exacerbada, preocupação genuína com o outro ou seja lá o que o for é capaz de dizer sonoros e definitivos “sins”.

Dediquei-me, como já contei aqui, a algumas causas que muito me honram – o CVV e a primeira comunidade leiga de trabalho com drogadependentes dentre essas, apoiado por times de pessoas conscientes, Antônio Coelho Berbel entre elas (ele, que não enfrentou problemas com drogas na família, dedica-se há incontáveis anos a buscar soluções para dar guarida a dependentes químicos, e, muitas vezes, os levou para sua própria casa) – mas isso, concluo, fiz porque não me foi pedido a que repetisse Berbel ou as famílias que disseram ‘sim’ a Roberto e às suas causas. Não tenho e jamais terei os dons desses que me fazem sentir pequeno, muito pequeno. Honro-os.

Cumpro minha obrigação de espalhar a notícia. Roberto e seu time técnico também nos disseram que há trabalho duro a ser realizado e que o número de famílias encontrado ainda é baixo, apesar de serem surpreendentes. Se, ao ler, você se sentiu tocado, ligue e ofereça-se. O telefone é o (16) 37119300.

Para terminar, volto à renovação que o descanso deste início de mês me permitiu: quando a gente está menos tenso, olha para todos os lados e descobre que há muito ainda a fazer. De vez em quando precisamos nos renovar para limpar os olhos e enxergar de novo.

BERBEL
Meu estimado companheiro de batalhas Antônio Coelho Berbel não anda muito bem de saúde. Tive notícias dele está semana. Está em sua casa lutando mais uma luta difícil, sempre apoiado pelos seus, acostumados aos desafios que o chefe da família sempre gostou de abraçar. A causa agora é pessoa. Estou à distância, torcendo por sua recuperação plena.

COVARDIA HUMANA
A foto de Wilker Maia, deste GCN, diz tudo. Tiago chora por Gina, parceira de brincadeiras, pedaço querido da família. Só quem tem ou teve cão sabe a dor, ainda mais por tê-la perdido covardamente morta por ingestão de veneno contido em gomos de linguiça espalhados por um desclassificado com o fim específico de matar animais na Vila Santa Helena, em Franca. Podia ter sido uma criança, não podia? Pobres seres humanos.

Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br

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