Sou de tal forma apaixonada pelos livros que, se entro em uma livraria ou qualquer lugar que os venda, posso ficar por ali até perder a noção do tempo. E não importa do que tratem, vasculho as prateleiras até encontrar algo que me interesse e saio dali com um companheiro novo em minha vida.
Estou segura que os livros me salvaram da angústia imensa de estar de posse de uma vida sem ter quaisquer respostas. Na verdade, pode-se sentir um vazio profundo quando se começa a pensar sobre o sentido da existência e as respostas são guardadas em um espaço demasiado subjetivo para serem logicamente tocadas.
Enfim, foi em uma dessas situações que encontrei, esperando por mim, biografia de Clarice Lispector escrita por Benjamin Moser. Acho que o que me seduziu foi a vírgula do título, que abre um mundo de possibilidades: o livro se chama Clarice, ...
Trata-se de um vocativo? Clarice, vou tomar a liberdade de procurar desfiar os seus segredos...Vou revirar suas gavetas, examinar os seus vestidos, desabotoar a sua pele, arrancar seu coração, pegar um atalho qualquer para a sua alma e depois... Quem sabe o que virá depois?
Seria o caso do autor querer introduzir um aposto? Clarice, brasileira nascida na Ucrânia, mulher de diplomata, mãe por vocação, peregrina dos confins da alma, feiticeira, sobrevivente, dolorosamente humana, sarcástica, cáustica, espaço de mistério e solidão...
Poderíamos pensar que fosse um alerta: Clarice, consuma-a com moderação. Ou o simples pretexto para um pedido: Clarice, estou com medo, você poderia segurar a minha mão?
Não sei exatamente o que Moser tinha em mente, talvez nada disso ou tudo isso e muito mais. Mas sei o que aquela vírgula significa para mim quando leio Clarisse: estou com medo, você poderia me explicar o que está acontecendo? Porque encontro tanto de mim nas coisas que você escreve, nessa consciência do ser humano ser tão só, nesse lugar árido e doloroso que compõe o avesso da luz, nesse espaço tão íntimo que nem eu mesma conheço...
E assim, saindo de um espaço muito particular e extremamente universal, Clarice talvez respondesse: “E ninguém é eu, e ninguém é você. Esta é a solidão...”.
Tenho pensado que é preciso conviver com essa certeza e ao mesmo tempo assumir que ninguém gosta de ser só. Por isso essa nossa busca incessante: queremos amar, queremos ser desejados, precisamos ser reconhecidos, compreendidos, amparados e amados. Precisamos ser olhados e ao mesmo tempo convencidos de que a nossa dimensão humana não é uma maldição.
Por tudo isso, festejamos e rimos e trilhamos os sem-fins da vida. Por isso rezamos e choramos a perda daqueles que se vão. Por isso batizamos os nossos filhos e lhes damos a dimensão do sagrado e do pertencimento. Guardamos pequenas coisas a título de recordação. Encontramos os amigos e celebramos.
São essas coisas que marcam um ritmo todo próprio do existir de cada um. São essas coisas que mantêm viva a minha alma e dão sabor ao meu destino. Desfio cada dia de minha existência e os marco pelas cores distintas de cada pôr-do-sol; enfeito-os com episódios de “felicidade clandestina”.
Abro as janelas, respiro fundo e vou em frente porque entendo que as pessoas são rastros que se encontram e a vida, qual costura em fase de alinhavo, uma justaposição de peças. No mais, fica a experiência do sentir, que em toda a sua dimensão, nos faz mais humanos.
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